Trabalho, democracia e soberania entram no centro da disputa
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- Categoria: Agência DIAP

Em seminário do DIAP, parlamentares, analistas e especialistas apontam que debates sobre jornada de trabalho, negociação coletiva, soberania nacional e comunicação política já moldam a eleição presidencial e a correlação de forças no próximo Congresso
A segunda edição do Diálogos DIAP on-line, realizada nesta sexta-feira (15), transformou-se em amplo debate sobre o futuro das relações de trabalho, da democracia e da disputa política de 2026.
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Promovido pelo DIAP, o encontro reuniu o deputado Leo Prates (Republicanos-BA), relator da PEC 221/19, que trata da redução da jornada e do fim da escala 6x1; o deputado André Figueiredo (PDT-CE), relator do projeto que regulamenta a negociação coletiva no serviço público; o estrategista Hajj Mangolin, da Amangolin Comunicação e Estratégia; e o consultor político Antônio Augusto de Queiroz, o Toninho do DIAP.
Mais do que seminário técnico, o evento consolidou leitura comum entre os participantes: a pauta trabalhista voltou ao centro da disputa nacional e será um dos eixos decisivos da eleição presidencial e legislativa de 2026.
Negociação coletiva do funcionalismo avança após décadas de espera
Relator do projeto que regulamenta a Convenção 151 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), André Figueiredo afirmou que o Congresso pode concluir ainda neste semestre demanda histórica do funcionalismo público brasileiro.
Segundo o parlamentar, a proposta enviada pelo presidente Lula (PT) cria mesas permanentes de negociação entre servidores, sindicatos e governos nas 3 esferas federativas: União, estados e municípios.
O deputado destacou que o texto busca institucionalizar o diálogo permanente para evitar que greves ocorram apenas como instrumento extremo de pressão. “Hoje, muitas vezes, a greve acontece para que os servidores sejam ouvidos. Com uma mesa permanente de negociação, o diálogo passa a ser contínuo”, afirmou.
Figueiredo também adiantou mudanças no relatório para evitar que acordos firmados nas mesas de negociação sejam posteriormente ignorados pelos chefes do Executivo.
A proposta prevê mecanismos para obrigar presidentes, governadores e prefeitos a se manifestarem formalmente sobre os termos negociados, evitando assim que acordos permaneçam indefinidamente sem resposta.
Outro ponto citado foi a ampliação da participação de entidades representativas e associações classistas nas negociações. Segundo o relator, a expectativa é votar o projeto na Câmara ainda em junho e concluir a tramitação no Senado antes do recesso parlamentar de julho.
Crise global, polarização e instabilidade moldam ambiente político
Na análise de Antônio Augusto de Queiroz, o cenário brasileiro está diretamente conectado à crise internacional mais ampla de governabilidade, representação política e fragmentação social.
O consultor do DIAP afirmou que governos em todo o mundo enfrentam dificuldades semelhantes de popularidade e legitimidade em razão da velocidade das transformações tecnológicas, da radicalização política e da desinformação digital.
Segundo ele, a política contemporânea vive ambiente de “poder efêmero e contestado”, em que instituições tradicionais enfrentam dificuldades para responder à velocidade das redes digitais, da inteligência artificial e da circulação instantânea de informações.
Toninho também associou o crescimento da extrema direita internacional ao avanço de discursos antissistema, ao desgaste institucional e à crise econômica global agravada por guerras, disputas geopolíticas e instabilidade comercial.
Nesse contexto, defendeu que as eleições de 2026 serão decisivas não apenas para o governo federal, mas para a própria governabilidade do País.
O consultor alertou especialmente para a disputa do Senado, que terá renovação de 2/3 (54) das cadeiras e pode alterar profundamente o equilíbrio político nacional. Segundo ele, eventual maioria da extrema-direita na Casa poderia produzir tanto bloqueios institucionais quanto aprofundamento da crise entre os Poderes.
Comunicação, dados e comportamento eleitoral entram no centro das campanhas
Representando a Amangolin Comunicação e Estratégia, Hajj Mangolin apresentou análises sobre o novo comportamento do eleitorado brasileiro e o impacto das transformações digitais nas campanhas político-eleitorais.
Segundo ele, pesquisas tradicionais já não são suficientes para compreender plenamente o eleitor contemporâneo. Por isso, a Amangolin Comunicação e Estratégia passou a trabalhar com modelos preditivos baseados em comportamento, cruzamento de dados e identificação de perfis políticos permanentes.
Mangolin argumentou que a polarização acelerou mudanças no modo como os eleitores consomem informação e reagem emocionalmente aos temas políticos.
Entre os pontos considerados positivos para o campo governista, ele citou a defesa da soberania nacional, a ampliação da isenção do Imposto de Renda, o debate sobre o fim da escala 6x1 e o combate ao crime organizado.
Entre os fatores negativos, apontou o custo de vida, o preço dos alimentos, o endividamento das famílias, a sensação de insegurança e o distanciamento de parte da juventude em relação às instituições.
Segundo ele, setores progressistas passaram a ser vistos por parte dos jovens como excessivamente identificados com a defesa institucional, enquanto grupos conservadores conseguiram ocupar o espaço simbólico do discurso “antissistema”.
Mangolin também chamou atenção para a necessidade de aprofundar debates sobre trabalhadores de aplicativos, regulamentação das bets e privatizações estratégicas.
Pauta trabalhista se consolida como eixo da eleição de 2026
O seminário evidenciou que temas historicamente ligados ao movimento sindical voltaram a ocupar posição central no debate nacional.
A redução da jornada de trabalho, a negociação coletiva no setor público, a precarização dos aplicativos, a soberania econômica e o custo de vida passaram a integrar a mesma disputa política e social.
Na avaliação predominante entre os participantes, a eleição de 2026 não será definida apenas por alianças partidárias tradicionais, mas pela capacidade de interpretar as angústias cotidianas da população trabalhadora.
Mais do que disputa eleitoral convencional, o cenário descrito no encontro aponta para disputa de modelos de País. Entre projeto centrado em proteção social, fortalecimento do Estado e soberania nacional e outro associado à radicalização conservadora, ao ultraliberalismo econômico e ao desgaste institucional.
Nesse ambiente, trabalho, renda, democracia e qualidade de vida deixaram de ser temas setoriais e passaram a ocupar o núcleo da disputa pelo futuro político do Brasil.
