O PSD e a reconstrução do centro político
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Pragmatismo, governabilidade e o novo equilíbrio do sistema partidário.
Marcos Verlaine*
Trata-se, pois, de a aritmética do poder real, o PSD. Em pouco mais de um ciclo eleitoral — fundado e registrado oficialmente em 2011 —, o partido protagonizou uma das expansões mais consistentes do errático sistema partidário brasileiro.
Saltou de 2 para 6 governadores, consolidou 47 deputados federais — a 5ª bancada da Câmara — e alcançou 13 senadores, tornando-se a segunda maior força do Senado. A primeira é o PL, com 15.
No plano municipal, onde a política brasileira se ancora, o avanço foi ainda mais expressivo: 878 prefeitos eleitos em 2024, contra 659 em 2020, incluindo 5 capitais. O MDB vem em seguida, com 847, e também 5 capitais.
Esses números não expressam apenas crescimento; revelam capilaridade territorial, capacidade de atração de quadros competitivos e, sobretudo, poder de barganha institucional.
Em um Congresso fragmentado, quem soma votos de forma previsível torna-se indispensável.
“SOCIAL DEMOCRATA” POR CONVENIÊNCIA NOMINAL
O PSD nunca foi, de fato, e nem pretendia ser, um partido social-democrata nos moldes europeus. O nome funciona mais como marca moderada do que como orientação programática.
A legenda carece de clivagem ideológica clara, não se estrutura em torno de projeto nacional de desenvolvimento nem mobiliza bases sociais orgânicas.
Essa ausência, porém, não é mero vazio: trata-se de estratégia consciente de flexibilidade. Ao se posicionar no centro-direita, sem dogmatismo liberal ou conservador, o partido se mantém adaptável a diferentes governos, reduzindo custos de alinhamento e maximizando ganhos em qualquer arranjo vencedor.
KASSAB E O PRAGMATISMO COMO MÉTODO
A consolidação do PSD está diretamente ligada ao estilo de Gilberto Kassab, um operador político avesso a confrontos ideológicos e focado na lógica da governabilidade.
Sua condução privilegia acesso ao Executivo, estabilidade interna e proteção aos mandatários eleitos.
O PSD tornou-se, assim, sigla de acolhimento para lideranças regionais fortes — governadores, prefeitos e parlamentares — que buscam previsibilidade, espaço e autonomia.
Em ambiente marcado por radicalização e volatilidade partidária, esse perfil funciona como porto seguro.
PRESIDENCIÁVEIS SEM PRESSA
O partido abriga 3 governadores com densidade nacional — Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite — todos no fim do segundo mandato, o que naturalmente os projeta para a arena presidencial.
O ponto central, contudo, não é a viabilidade imediata de cada nome, mas a posição estratégica da legenda.
O PSD pode lançar candidatura própria sem erodir pontes, testar força no primeiro turno ou optar por composição cirúrgica no segundo.
Diferentemente de partidos ideológicos, não precisa vencer para ganhar. Não que ideologia seja um problema em si. Todavia, essa ausência de clivagem ideológica ajuda o partido a ficar bem com todo mundo, principalmente com quem ganha.
FIEL DA BALANÇA DO SISTEMA
É nesse contexto que o PSD se afirma como fiel da balança da política nacional. Caso não dispute a Presidência — ou dispute e seja derrotado — tende a sair fortalecido, ocupando o centro do sistema decisório.
Com peso no Senado, presença relevante na Câmara e hegemonia crescente nos municípios, torna-se ator-chave para qualquer coalizão governante.
No presidencialismo de coalizão brasileiro, onde governar é somar forças heterogêneas, partidos como o PSD não apenas participam do jogo: definem seus limites.
PRAGMATISMO COMO ATIVO. E RISCO
A aposta na flexibilidade cobra seu preço. A ausência de identidade programática pode limitar ambições hegemônicas e expor o partido à crítica de oportunismo.
Ainda assim, no Brasil real — onde números frequentemente valem mais que narrativas — o PSD encontrou sua fórmula de sucesso.
Não é o partido das ideias, nem o da polarização. É o partido da governabilidade possível.
Conclusão: ao abdicar do “dogma” e investir no cálculo, o PSD deixou de ser coadjuvante. Tornou-se chave estrutural do sistema político. E, na política brasileira, quem controla o centro raramente fica fora do poder. Este centro, outrora, fora do PMDB/MDB.
A propósito, um dos principais pontos de equilíbrio da política brasileira — desmontado no processo que antecedeu e sucedeu o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) — foi o centro político, cuja função, nas democracias liberais, é justamente reancorar o sistema no equilíbrio e no caminho do meio.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
