Com 3 presidenciáveis no papel, o partido busca musculatura nacional. Mas a estratégia revela mais cálculo eleitoral do que real disputa pelo poder central.

Marcos Verlaine*

O presidente nacional do PSD (Partido Social Democrático), Gilberto Kassab, move-se no tabuleiro político-eleitoral com estratégia conhecida na política brasileira: crescer primeiro no território, para depois disputar o centro do poder.

A ambição declarada é transformar o PSD no partido de maior capilaridade nacional, ultrapassando o histórico protagonismo do MDB (Movimento Democrático Brasileiro).

Para isso, Kassab colocou em cena 3 governadores como pré-candidatos à Presidência da República: Ratinho Júnior (PR); Ronaldo Caiado (GO); e Eduardo Leite (RS). No discurso, trata-se de disputa interna robusta que projeta o partido na corrida presidencial de 2026.

Na prática, contudo, o trio revela mais engenharia política do que candidaturas efetivamente competitivas ao Palácio do Planalto. A distância entre a tática partidária e a conquista do poder central permanece, até aqui, abissal.

 

O CÁLCULO DA “TERCEIRA VIA”

Nenhum dos 3 nomes do PSD rompeu — ao menos até o momento — a chamada “polarização” que organiza a política nacional desde 2018. O sistema político brasileiro segue orbitando entre o campo liderado pelo presidente Lula (PT) e a direita que se reorganiza após o ciclo de Jair Bolsonaro.

Nesse cenário, as candidaturas de Ratinho Jr., Caiado e Eduardo Leite aparecem mais como tentativa de ocupar o espaço da chamada “terceira via” do que como projetos com densidade eleitoral para chegar ao segundo turno.

Entre os 3, Ratinho Jr. surge como o nome mais competitivo. Pesquisas recentes indicam menor rejeição e desempenho relativamente melhor em simulações de segundo turno; chegando a encostar em Lula em determinados cenários.

Ainda assim, esse desempenho permanece dentro da margem de erro e distante de consolidar candidatura capaz de quebrar a lógica polarizada da disputa atual.

Caiado carrega forte identidade com a direita tradicional, mas enfrenta limites regionais e partidários. Eduardo Leite, por sua vez, chega ao PSD após deixar o PSDB, trazendo experiência administrativa, porém ainda sem densidade eleitoral nacional consolidada.

O resultado é um paradoxo: 3 pré-candidatos que, somados, projetam o partido, mas isoladamente não configuram candidatura presidencial forte.

 

A LÓGICA DA BARGANHA

No fundo, a movimentação de Kassab parece obedecer a 2 objetivos políticos claros.

O primeiro é posicionar o PSD como força indispensável para o segundo turno da eleição presidencial. Ao apresentar candidato próprio, o partido ganha visibilidade, tempo de televisão, projeção nacional e poder de negociação. Na reta final da disputa, poderá apoiar uma das candidaturas realmente competitivas. E assim ampliar seu peso na formação de governo.

O segundo objetivo é mais estrutural: usar a campanha presidencial como instrumento de expansão partidária.

No Brasil, candidaturas ao Planalto funcionam como “puxadores” de votos indiretos. Essas ajudam a eleger governadores, ampliam bancadas na Câmara dos Deputados e fortalecem a presença no Senado. Ao lançar um presidenciável, o PSD busca consolidar-se como força dominante no plano federativo, com presença robusta em estados e municípios.

É estratégia que não depende da vitória presidencial para produzir ganhos concretos.

 

CAPILARIDADE VERSUS PODER

Kassab é um dos políticos que melhor compreendem o funcionamento do sistema partidário brasileiro. O projeto dele para o PSD nunca foi apenas eleitoral; é estrutural. O objetivo é transformar o partido numa espécie de eixo pragmático da política nacional, capaz de dialogar tanto com governos quanto com oposições.

Nesse sentido, o verdadeiro adversário do PSD não é um candidato específico, mas o MDB, legenda que historicamente construiu a maior rede política do País, baseada em prefeitos, governadores e parlamentares.

Desbancar essa estrutura exige tempo, presença territorial e disciplina partidária: algo que Kassab vem tentando construir desde a fundação do PSD, em 2011.

O problema é que a capilaridade não se traduz automaticamente em poder presidencial. O Brasil já viu partidos com forte presença institucional fracassarem em disputas nacionais quando não conseguem produzir lideranças com densidade eleitoral suficiente.

Entre a tática de ampliar o partido e o desejo de chegar ao Planalto, o caminho é longo.

 

O PARTIDO DO “DIA SEGUINTE”

Seja qual for o desfecho da eleição de 2026, o PSD parece apostar em papel específico: o de força decisiva no “dia seguinte” da eleição. Partido grande o suficiente para influenciar governos, mas flexível o bastante para negociar com diferentes campos políticos — à esquerda ou à direita — como se fosse pendular.

Essa estratégia pode não levar Kassab ao Planalto, mas pode levá-lo a algo que, no sistema político brasileiro, muitas vezes vale tanto quanto: a capacidade de decidir quem governa.

No tabuleiro da política nacional, nem sempre vence quem chega primeiro ao poder. Às vezes, vence quem controla as peças que tornam a vitória possível.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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