Lutar em defesa do SUS é lutar em defesa da vida
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Apesar de regulamentado há 36 anos, o Sistema Único de Saúde segue sob ameaça.
Gustavo Alves*
O debate sobre a saúde pública no Brasil não carece de diagnóstico. Carece de soluções. O SUS permanece como uma das maiores estruturas de proteção social do mundo, responsável por atender a maioria da população brasileira.
Sua dimensão é, ao mesmo tempo, força e desafio. Mais de 150 milhões de brasileiros dependem exclusivamente do Sistema, o que exige financiamento contínuo, boa gestão e constante adaptação.
No Distrito Federal, os problemas nacionais se manifestam de forma ainda mais aguda. A rede pública enfrenta desfinanciamento severo e processo acelerado de desmonte. A redução de recursos promovida pelo governo local evidencia descaso estrutural com a população.
Os efeitos dessa escolha política já eram visíveis em 2025: atrasos nos repasses ao Hospital da Criança de Brasília resultaram no fechamento de leitos de UTI e enfermaria. No mesmo ano, o orçamento da Saúde foi de R$ 13 bilhões. Para 2026, o próprio governo enviou projeto com corte de R$ 1,1 bilhão. Aprovado sem rodeios. A crise, portanto, não surpreende: foi planejada.
À época, o corte foi atribuído à suposta frustração de receita. Os dados, porém, indicam o contrário. Entre janeiro e novembro de 2025, a arrecadação do DF chegou a R$ 24,14 bilhões, com crescimento nominal de 6,6% e ganho real, mesmo descontada a inflação.
O que se desenha, com mais nitidez a cada dia, é crise aprofundada por decisões políticas e por problemas na gestão financeira, incluindo irregularidades envolvendo o BRB. A situação do SUS no DF e a crise no Hospital da Criança são, assim, consequência direta dessas escolhas políticas do ex-governador e da vice, agora governadora, Celina Leão (PP).
Some-se a isso o papel do Iges, apresentado como solução, mas que acumula críticas: alto custo, limitações operacionais e denúncias recorrentes: de contratos superfaturados à precarização do atendimento e irregularidades trabalhistas.
Ou seja, além dos desafios históricos, o DF passou a conviver com novos problemas criados pela própria condução da política de saúde.
Investir em saúde é investir em desenvolvimento, qualidade de vida e, sobretudo, na preservação da vida. Medidas emergenciais ajudam a conter crises, mas não substituem políticas estruturais. Fortalecer a atenção básica, integrar serviços, agilizar exames, digitalizar processos e valorizar profissionais são caminhos indispensáveis.
O SUS segue como uma das maiores conquistas institucionais do Brasil. Mas continua sob ameaça. A defesa do SUS é dever coletivo, sobretudo dos gestores públicos.
Defender o SUS é, em essência, defender a vida.
(*) Jornalista, especialista em Ciência de Dados e chefe de gabinete na Secretaria Executiva do MDS
