Helder Molina*

  1. Trabalho como mercadoria, alienado, explorado X trabalho livre e emancipado
  2. Sindicato como intelectual orgânico: Escola de formação da consciência de classe?
  3. Sindicalismo diante da superexploração capitalista seus elementos regressivos

 RESUMO:

  • Este artigo problematiza a contraditória e complexa relação dialética entre trabalho, sua historicidade e sua ontologia, como mercadoria, alienado, explorado X trabalho livre e emancipado, sindicato como intelectual orgânico, como escola de formação da consciência de classe, sindicalismo, diante da superexploração capitalista, luta de classes e poder.
  • Coerentes com o materialismo histórico e dialético, discutimos que a ruptura estrutural de um modo de produção, não é meramente um evento político, mas um processo social, um movimento prático de transformação, através do qual os trabalhadores adquirem uma percepção de sua existência social, enquanto, ao mesmo tempo, nega e destrói o sistema de dominação. 
  • Compreendendo o movimento sindical como sujeito histórico coletivo, analisamos a sua materialidade contraditória, a questão da identidade e consciência de classe diante da metamorfose da sociabilidade capitalista, a partir dos referenciais teóricos clássicos e contemporâneos, o papel histórico e imediato dos sindicatos e do movimento sindical.
  • Busco, assim contextualizá-lo historicamente, sua necessidade, contradições, possibilidades e limites, como instrumento de classe na luta pela construção de um projeto societário de transformação econômica, social e política, na perspectiva da emancipação humana.
  • A atual crise capitalista implementou uma lógica destrutiva nas economias, nas sociedades e principalmente nos movimentos sociais organizados no Brasil e no mundo. Uma enorme ofensiva desregulamentadora que busca a eliminação ou enfraquecimento dos direitos históricos dos trabalhadores. Seria caso de questionar a validade e existência dos sindicatos, a não ser para negociar o preço das mercadorias força de trabalho e trabalhador, no balcão do mercado capitalista? A realidade atual sinaliza um declínio da instituição sindical? A crise não é do sindicato, mas de um modelo deste, superado pela complexidade da luta de classes contemporânea?  

  

  1. HISTORICIDADE E ONTOLOGIA DO TRABALHO NA FORMAÇÃO SOCIAL CAPITALISTA:

Ao produzirem as condições para viver, os homens e mulheres constroem as relações sociais, criam as formas de organização dessas relações e alimentam as possibilidades de conservar e ou transformar a vida social existente. Historicamente existem diferentes formas de produzir e reproduzir a vida social. Vivemos em uma forma específica de produzir a vida em sociedade, o capitalismo.

Na formação social capitalista, o trabalho foi transformado em mercadoria (Marx, 1993) Ou seja, os trabalhadores para sobreviver, trocam a sua capacidade de trabalho por salário. E este, é transformado em mercadorias que representam parte das condições das quais os trabalhadores poderão satisfazer as suas necessidades básicas (e outras tantas), e a variedade de mercadorias criadas pelas mãos humanas parece ter chegado a números quase incalculáveis.

O trabalhador, sujeito fundamental da produção da riqueza social é submetido a um processo progressivo de empobrecimento, e pressionado a incorporar na sua formação, informações que em nada asseguram seu ingresso no mercado de trabalho ou ainda, sua permanência neste.

Assim, é impossível e inaceitável confundir essa força com quaisquer outros meios existente de se executar tarefas, ainda que os capitalistas insistam em tratar o cavalo, o tear mecânico, o vapor, o motor a combustão, a energia elétrica, o telefone e a força humana como equivalentes, pois a eles o que interessa é apenas o resultado da produção, ou seja, o aumento de suas taxas de lucros.

O trabalho, em sua forma original, passou por séculos de metamorfoses – das formas primitivas de relação com a natureza e de atuação sobre ela como imperativo de sobrevivência, ao artesanato e agricultura, até as corporações de ofício da Idade Média e da transição para a Idade Moderna, aos modernos sistemas industriais de fábricas -, atingindo o complexo sistema de exploração que hoje conhecemos.

Com efeito, ao final do século XX, a humanidade experimentou um extraordinário avanço científico e tecnológico e, sob a hegemonia do capital, houve mais destruição do que bem-estar. As contradições provocadas pela sua mundialização (Chesnaiss, 1998), atingem o conjunto da humanidade.

A nova base técnica do trabalho, produto da extraordinária revolução eletrônica, produz robôs, máquinas informatizadas que, como nunca, podem aumentar a produtividade e a qualidade da produção, prescindindo de milhões de cérebros e braços, ao mesmo tempo em que ampliam a exploração e a precarização dos trabalhadores empregados e produzem um contingente absurdo de desempregados.

Os processos de trabalho, nos diferentes ramos da economia, têm sido incessantemente metamorfoseados, buscando sempre uma maior acumulação de capital. Para o trabalhador, que vende sua força de trabalho, essas transformações nunca representaram algum tipo de melhoria ou ganho duradouro e significativo.

Pelo contrário, para ele, submetido à lógica de acumulação e exploração do capital, o trabalho está associado a sofrimento e dor, (como no caso da aluna trabalhadora, citado no início deste capítulo, que identifica trabalho com alienação e fardo) porque o trabalhador não é capaz de decidir sobre aquilo que faz nem sobre o destino das mercadorias e valores que produz. O fruto do seu esforço é apropriado por outra pessoa, é apropriado pelo dono da empresa, pelo proprietário dos meios de produção.

O ser humano, em sua existência material, o tempo todo cria necessidades e cria meios para satisfazê-las. Essas necessidades podem ter conteúdos humanizadores, de emancipação do corpo e expansão espiritual. Ou o seu contrário, desumanizadoras, como é própria do consumismo capitalista e do fetichismo da mercadoria. 

Isso não significa dizer que não haja limites, de várias ordens, na dilatação de determinados meios que respondem a necessidades historicamente criadas. O trabalho dedicado a satisfazer aquelas necessidades humano não pode se limitar a uma quantidade e a uma forma historicamente dadas.

No entanto, no modo de produção capitalista não é do trabalho livre, emancipado e emancipador que estamos tratando, mas de um trabalho obrigatório, alienado, de um trabalho abstrato. Subsumido ao capital, o trabalho se converteu em um meio de criar riquezas em geral, deixando de estar vinculado aos indivíduos como determinação dentro de uma particularidade.

O modo de existência quantitativo do trabalho e o tempo de trabalho uniforme e diferenciado, simples, por assim dizer, despido de toda qualidade.  Sob o regime do capital, o trabalho alienado, a divisão do trabalho, a lei do mercado e a propriedade privada formam uma cadeia que aprisiona e embrutece quem o produz. 

Não se pode escapar da alienação da relação salarial sem propor e lutar, ao mesmo tempo, pela apropriação social, planificação democrática e solidária da economia e a substituição da divisão do trabalho pelo trabalho livre, associado e emancipado. Em suma, lutar contra o próprio capital e o capitalismo.

O trabalho em sua forma capital, e o sistema de capital, o capitalismo, produziu um paradoxo. Numa sociedade de superprodução e de produção do supérfluo, por um lado os seres humanos buscam responder às suas necessidades básicas, socioculturais e ético-políticas e estéticas com um tempo de trabalho produtivo cada vez menor, e por outro, a incapacidade do capital de socializar e democratizar essa produção e de gerar efetivamente tempo livre, de liberdade, de emancipação do corpo e de expansão espírito, de expressão de seus talentos e aptidões criativas.

Os sindicatos e as suas formas de luta variam de sociedade para sociedade, embora pese que nas sociedades mais industrializadas a sua importância e o seu papel na dinâmica social seja de maior relevo.

Os sindicatos não são estáticos evoluem com a evolução das sociedades, hoje o seu papel não tem o peso ideológico que teve no passado, mas a sua importância e incontornável para as sociedades democráticas, não há política social e política para o emprego que não tenha nas negociações governamentais o representante dos sindicatos.

Já dito anteriormente, reiterando que o trabalho continua a ter uma centralidade vital para as pessoas, ocupam os seres humanos num terço da sua vivência diária, e para grande parte da humanidade enquanto o sol aquece e ilumina a Terra, encontram-se enredados numa atividade que lhes remunera a sua existência, e que dá sentido à sua vida na esfera social como forma de efetivar, a sua contribuição para com a sociedade.

A precariedade devido ao que alguns autores já chamam da terceira revolução industrial acabou com emprego para toda a vida bem como cimentou a angústia em que vivem os assalariados. O esforço do homem em busca da sua valorização, da conquista de seus direitos e da defesa de seus interesses são elementos comuns no associativismo que possibilitaram a busca da humanização e do exercício da cidadania.

O capitalismo se baseia na compra da força de trabalho do trabalhador, por meio do assalariamento, e lucro dos capitalistas é produzido pelo trabalho não pago (mais-valia) e pela apropriação direta e indireta do que ele produz.  

  1. SINDICATO COMO INTELECTUAL ORGÂNICO: ESCOLA DE FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA DE CLASSE?

Marx, em um de seus escritos clássicos, Ideologia Alemã (1993), afirma que o processo material geral de produção de ideias, crenças e valores na vida social. Essas ideias, crenças ou valores são produzidos na vida concreta, portanto, são produtos sociais. Não são neutras, tanto politicamente cientificamente.

Os interesses estão em conflitos, e as lutas estão associadas à implementação, ou negação, dessas ideias, associadas ao poder político. As ideias e crenças (verdadeiras ou falsas) que simbolizam as condições e experiências de um grupo ou classe específico, socialmente significativo. Marx, a ideologia dominante em determinada sociedade, em determinado contexto histórico, é a ideologia da classe dominante.

Para o materialismo histórico e dialético, a emancipação política e humana dos trabalhadores é um processo de construção contraditória, feita coletivamente por estes. Esta consigna está presente desde a fundação da 1ª Internacional. De acordo com Marx, os trabalhadores não podem ser educados por uma fonte externa, ou, se assim fosse, quem educaria o educador? 

Dada a unidade indivisível entre teoria e prática, a consciência só pode se desenvolver através da práxis (sua própria, e não a de outro alguém) luta ação e experiência. A transformação num sentido revolucionário, não é meramente um evento político, mas um processo social, um movimento prático de transformação, através do qual os trabalhadores adquirem uma percepção de sua existência social, enquanto, ao mesmo tempo, nega e destrói o sistema de dominação.

Isto não significa, em absoluto, subestimar o papel desempenhado pela teoria, mas, preferencialmente, significa colocá-la no devido lugar, assim o trabalho de Marx e Engels não será mais entendida principalmente como a culminação da ciência burguesa e, sim como uma generalização científica da atividade prática dos trabalhadores em seu tempo.

A consciência de classe é, portanto, uma síntese, tirada da experiência pessoal adquirida no decorrer de uma prolongada luta, que criticamente revê todo o conhecimento previamente disponível. É indispensável, ao mesmo tempo, que os trabalhadores compreendem a essência da sociedade capitalista, as relações de exploração entres as classes sociais, e suas próprias tarefas históricas.

A teoria contribui para a construção da consciência de classe, pois oferece uma estrutura que mostra o processo de formação e desenvolvimento do processo de construção da consciência. A teoria marxista, como uma guia de ação para o movimento operário, não pode ser trazida para a luta de classes de fora para dentro, mas, ao contrário, deriva de experiências concretas dos trabalhadores, e reflete-se sobre a experiência para fazer avanças suas próprias lutas.

A terceira tese sobre Feuerbach responde, em termos globais: Na práxis concreta da classe. Mas como uma ação empreendida por um sujeito real coletivo, esta práxis surge fragmentada porque a classe é, na realidade, heterogênea. Está fracionada em grupos mais ou menos contingentes, cujas ações são, por isso, desarticuladas.

A práxis parece complexa porque a classe trabalhadora atua em vários níveis e suas ações têm âmbitos e conteúdos diferentes; embora tente lançar um desafio integrado para esta desarticulação, que é constantemente incentivada pelo sistema como um elemento chave em sua estratégia de dominação.

Aqui, como o risco de retroceder à metafísica do sujeito, é importante estabelecer um ponto básico. Estas afirmações devem ser entendidas dialeticamente, dado que a classe trabalhadora não tem uma identidade histórica que preceda a práxis complexa, fragmentada e concreta. Assim, a classe não é uma “coisa”, uma categoria estatística que possa ser definida a priori e na qual a “consciência correta” possa ser abstratamente injetada de fora para dentro.

A classe é um processo histórico situado num contexto particular. Possui suas próprias características nacionais e é limitada pela especificidade de lutas que emergem das tradições, sistemas de valores, ideias e modos concretos de organizações, e deles se tornam parte.

A consciência de classe, e o projeto emancipatório advindo desta, não é uma determinação histórica, e não está na natureza do processo histórico, ao contrário, tarefa cuja realidade emerge de sua correspondência a uma tendência objetiva de desenvolvimento histórico; embora a maturação de condições concretas possa tornar essa tarefa possível, não a torna necessariamente inevitável.

Quando muito, em princípios bem dialéticos, aquelas condições não podem amadurecer integralmente, sem que a classe trabalhadora desenvolva sua consciência, de maneira a transformar tais condições em meios para sua própria emancipação.

Uma investigação das formas predominantes de consciência de classe pressupõe uma análise histórica de uma multiplicidade de práticas institucionalizadas e não institucionalizadas.

Estas práticas não podem ser sintetizadas de forma simplista não só porque essa forma é em si multidimensional, mas também porque de fatos as dimensões são sempre assimetricamente desenvolvidas. Apesar da extrema dificuldade desta tarefa, ela permanece, não obstante, como pronto de partida necessária para a intervenção política que esteja por se efetivas

  1. SINDICALISMO DIANTE DA SUPER EXPLORAÇÃO CAPITALISTA  E SEUS ELEMENTOS REGRESSIVOS

Para Gramsci, as forças de produção estão diretamente relacionadas à estrutura objetiva e permitem identificar as condições necessárias para uma transformação social, tomando como base o “grau de desenvolvimento das forças materiais de produção”. As forças políticas referem-se ao “grau de homogeneidade, de autoconsciência e de organização alcançado pelos vários grupos sociais”, e correspondem aos momentos da consciência política coletiva. Nestes momentos de consciência política coletiva o autor identifica três estágios:

O primeiro mais elementar é o econômico-corporativo; (...) sente-se a unidade homogênea do grupo profissional e o dever de organizá-la, mas não ainda a unidade do grupo social mais amplo. (....) segundo momento é aquele em que se atinge a consciência da solidariedade de interesses entre todos os membros do grupo social, mas ainda no campo meramente econômico.

Já se põe neste momento a questão do Estado, mas apenas na obtenção de uma igualdade político-jurídica com os grupos dominantes, já que se reivindica o direito de participar da legislação e da administração e mesmo de modificá-las, de reformá-las, mas nos quadros fundamentais existentes. 

Um terceiro momento é aquele em que se adquire a consciência de que os próprios interesses corporativos, em seu desenvolvimento atual e futuro, superam o círculo corporativo, de grupo meramente econômico, e podem e devem tornar-se os interesses de outros grupos subordinados. Esta é a fase mais estritamente política, que assinala a passagem nítida da estrutura para a esfera das superestruturas complexas (GRAMSCI, 2000, p.40-41).  

 A crise social e seus elementos sócio-regressivos só aprofundaram as tentações neocorporativas e as práticas burocráticas sob o discurso de sobrevivência e da prática possível diante das dificuldades da ofensiva do capital. Nesse período, fortaleceu-se o capital financeiro, explicitando-se as dificuldades objetivas postas pela mundialização do capital.

Alves (2005) argumenta que da “década neoliberal” e sua crise do sindicalismo surge, nos anos 2000, um sindicalismo de crise, elemento compositivo do Estado neoliberal, sindicalismo mais disposto a colaborar com o Estado político e incapaz de ser centro de contestação à ordem social, organizando, em torno de si, precarizados e excluídos da lógica produtiva do capital.

O que significa que da “década neoliberal” emergiu um novíssimo sindicalismo em contraste com aquele da década de 1980. A crise da base sindical destilou práticas neocorporativas. A inércia da burocracia sindical acirrou-se com a crise social e os interesses de castas político-corporativas tenderam a proliferar sobre a consciência de classe.

Boito (2009) afirma que um dos fundamentos de sua crise é ideológica. Segundo ele, os movimentos sindicais na Europa, do final do século XIX, tinham matizes anarquistas, marxistas, social-democratas, entre outros. Eram movimentos combativos que tinham a perspectiva do socialismo com a crise final do capitalismo, ou seja, havia uma teoria revolucionária explicitando de como se daria o salto qualitativo do modo de produção capitalista para o modo de produção socialista.

Os trabalhadores tinham como fim último da luta não a ilusão de uma melhoria de trabalho e de salário dentro da ordem capitalista, mas a esperança de uma nova e justa ordem social antagônica àquela que os libertaria da escravidão salarial e do tempo massacrante do trabalho capitalista.

Marx (1993) atribuía à luta econômica um estágio para a classe desenvolver a luta política contra o capital. Lênin (1986) afirma que o pecado capital dos trabalhadores consistia em rebaixar suas tarefas políticas e de organização ao plano dos interesses imediatos, claros, concretos da luta econômica cotidiana, mas que era necessário imprimir na própria luta econômica um caráter político.

Boito (2009) considera que existe um processo de “desideologização”, de despolitização, ou seja, passa por um refluxo contínuo em que seu horizonte de luta se limita à mera reivindicação salarial e conservação de direitos trabalhistas garantidos pela legislação.

O autor afirma que, mesmo no contexto de refluxo ideológico e defensiva política, os trabalhadores e suas instituições não podem e nem devem ficar na inércia de uma política sindical oscilante (meramente institucional), presos aos acomodamentos ideológicos.

É necessário, nesse sentido, construir um campo de luta anticapitalista que favoreça o desenvolvimento, a ampliação e intensificação da luta de classes que está presente no cotidiano capitalista. Por outro lado, a estrutura sindical moderna e a luta dos trabalhadores fornecem ao governo e aos capitalistas um cenário sindical disciplinado e seguro.

As dificuldades político-ideológicas de se formarem novas lideranças no movimento sindical brasileiro cria um abismo que separa teoria e prática sindical.  Afirma-se a ideologia pragmatista, adaptada à ordem capitalista, hegemonizada o movimento sindical no contexto histórico atual. A maioria dos autores que fala em declínio do sindicalismo apresenta uma visão limitada do fenômeno.

É correto que o sindicalismo perdeu filiados, diminuiu sua atividade reivindicativa e perdeu influência política nas principais economias capitalistas - Europa Ocidental, América do Norte e Japão. Isso é verdadeiro, embora a situação esteja longe de ser homogênea. O ritmo e a intensidade do refluxo sindical variam muito de acordo com o setor econômico e o país considerado.

Em alguns países, como os Estados Unidos e a França, a queda nos níveis de organização sindical foram muito maiores que em outros, como a Inglaterra e Alemanha. Há o caso do Canadá que manteve os níveis de sindicalização ao longo das décadas de 1970, 1980, 1990, 2000.

Há, inclusive, a situação particular dos países escandinavos, nos quais, a despeito da tendência dominante na Europa Ocidental, o sindicalismo cresceu. No que respeita ao nível de sindicalização, os países escandinavos atingiram um patamar de organização inimaginável até pouco tempo atrás. Na Suécia, praticamente todos os trabalhadores estão sindicalizados. (BOITO, 2009, p.12)

Contraditoriamente, se olharmos para a América Latina, se verifica uma crise e um refluxo do movimento sindical. Caíram as taxas de sindicalização, a frequência de greves e a importância política do movimento sindical no Brasil, no México, na Argentina, no Chile, na Bolívia e em outros países. Há, portanto, um refluxo, ao menos como tendência dominante, na parte ocidental da Europa e em todo continente americano, tanto na América do Norte como na América do Sul

Não se pode apenas a partir desses dados, contudo, concluir, sem ressalvas e especificações, que o sindicalismo está em refluxo em escala internacional. Há regiões do planeta em que o sindicalismo está crescendo, e crescendo muito. Nos países da Europa Oriental, devido à recente implantação da liberdade de organização sindical, o movimento sindical está ressurgindo após longo período de letargia.

Nos países asiáticos de industrialização recente, países que se contam entre os mais populosos do planeta, apenas agora o sindicalismo começa a se organizar como um movimento social. Perguntamos, então: é correto falar em crise e refluxo do sindicalismo em escala internacional? Devemos tomar em consideração, para responder essa questão, a situação geral criada pelos movimentos opostos que o sindicalismo realizou em escala internacional. (BOITO, 2009, p.20)

Para Ferreira (2008) os estudiosos do sindicalismo embora unânimes em diagnosticar a crise que afeta os sindicatos, divergem quanto à sua natureza e intensidade. Alguns afirmam tratar-se da crise do modelo sindical oriundo do pós-guerra, e outros a consideram mais profunda, ao admitir a crise da própria instituição sindicato.

Os primeiros, segundo Ferreira (2008) apontam como saída a construção de um novo pacto, que considere as alterações processadas no mundo do trabalho. No segundo caso, trata-se de repensar o sindicato, suas funções, natureza e lugar numa sociedade onde o trabalho encontra-se em processo de mutação.

Independentemente de onde nos situemos na discussão é imperativo considerar que os sindicatos vêm perdendo suas funções centrais: proteção do emprego e defesa de melhor remuneração do valor da força de trabalho.

Alguns autores analisam a dupla face do trabalho como lugar de exploração e de dominação dos assalariados pelo capital e ponto de partida para construção dos direitos. O acesso ao mercado de trabalho foi fundamental para que as mulheres questionassem a profunda assimetria constitutiva das relações de gênero vigentes em sociedade. Para homens e mulheres o trabalho é um mediador insubstituível da emancipação e do exercício dos direitos cívicos (...) ele pode ser alienante, mas também pode ser um poderoso meio de reapropriação. 

Daí considerarem que o desemprego estrutural e a precarização do trabalho se traduzem politicamente na deterioração das possibilidades de construção da cidadania. O desemprego é causa eficiente da crise sindical: elemento objetivo de competição no interior do mercado de trabalho e elemento subjetivo de fragilização das instituições de representação.

O crescimento do desemprego, da precarização e informalização e a heterogeneidade de contratos, esgarçam a possibilidade de uma efetiva solidariedade de classe, fragilizando a ação sindical. A ocorrência de contratos de trabalho por tempo determinado atinge diretamente a construção da identidade do trabalhador. Como construir identidade em atividades temporárias ou se revezando entre o mercado formal e o informal? Qual o impacto dessa descontinuidade no plano sindical? (FERREIRA, 2008, p.46)

Contemplando diferentes visões sobre este tema, Hyman (1996) em “Os sindicatos e a desarticulação da classe operária”, ao contestar a tendência à desagregação, divisão e fim do sindicato classista, argumenta que o que está em disputa é uma visão mitologizada do passado percebido como uma época dourada em que os trabalhadores eram espontaneamente coletivistas e as organizações laborais se alinhavam por detrás de um projeto de classe unificador.

Hyman (1996) os sindicatos como organizações coletivas estão inelutavelmente arraigados a uma heterogeneidade de experiências e aspirações imediatas localizadas: espontaneamente tem tantas probabilidades de estar em conflito como em concordância. A construção de expressões de solidariedade mais extensas sempre requereu um esforço deliberado e precário, uma tendência de mobilização de tendência por parte de suas lideranças e dos ativistas das bases; e o êxito, quando se obtêm, resultou temporal ou parcial.

Essa linha de interpretação confere importância às transformações particulares, e relativiza afirmações sobre uma tendência ao individualismo por que.

Embora os ideólogos dos sindicatos” possam ter concebido tradicionalmente o coletivismo como um valor moral em si, o mais realista seria supor que – a parte os momentos de mobilização de massas – a maioria dos membros dos sindicatos aderiram à organização coletiva como meio mais eficaz de tornar realidade suas necessidades e aspirações individuais.  (HYMAN, 1996, p.25).

Hyman insiste que vem ocorrendo não uma crise do sindicalismo enquanto tal, mas uma crise da concepção e orientação tradicionais do sindicalismo. A noção de classe operária sempre foi uma abstração, nunca uma descrição ou generalização histórico-sociológica que a diferenciação, divisão e desunião têm sido traços onipresentes do desenvolvimento sindical.

“A solidariedade não é nunca uma qualidade natural ou fixa, sempre é uma meta que, no melhor dos casos, resulta difícil de alcançar e é efêmera”. Crer no mito de uma época dourada prévia, de unidade proletária e solidariedade sindical sem problemas, distorce nossa percepção da dinâmica atual dos movimentos dos trabalhadores (HYMAN, 1996, p.36)

Sobra a crise de representação hoje, segundo Ramalho (2002) “Os sindicatos são instituições que surgiram no processo de industrialização capitalista moderno”, como organismos de representação dos interesses dos trabalhadores assalariados, frequentemente locais e coletivos, e se tornaram organização mais abrangentes de forma lenta.

Diante dos impasses da forma-sindicato na sociedade do capital, o que se coloca é a necessidade desta instituição “sindicato” e de sua práxis social, o sindicalismo, se colocarem no campo da organização da classe do trabalho.

Linhart (2007) indaga

“Será que o sindicalismo não tende a desaparecer na tormenta das transformações que agitam as profundezas do mundo do trabalho”? Falta de adaptação, falta de invenção de novas missões, de novas práticas de novas ideologias, será que ele não condenou a si mesmo a desaparecer? A ser substituído por formas difusas de “negociação”, assumidas diretamente pelos assalariados e pelas chefias? Em outras palavras, o sindicalismo perdeu seus atributos? (LINHART, 2007, p.115)

Tumolo (2002) é rigoroso na análise da metamorfose capitalista junto ao movimento dos trabalhadores, tanto na subjetividade quanto na materialidade, pode delinear a compreensão da crise de identidade e de representação dos sindicatos. Estes elementos obstaculizam as possibilidades de desenvolvimento e consolidação de uma consciência de classe dos trabalhadores.

Enfim, os sindicatos perderam sua identidade, mas, qual delas? Certo é que estes foram agressivamente afetados pela reestruturação produtiva e pela mundialização regressiva do capital, pelo seu metabolismo destrutivo. No tempo presente, a fragmentação, terceirização, pulverização dos processos de trabalho, e busca incessante do capital em retirar dos direitos conquistados pelos trabalhadores, as sofisticadas formas e conteúdo de expropriação do trabalho, a mercantilização da vida, a coisificação do ser humano, enfim, apontam para grandes desafios.

REFERÊNCIAS

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BOITO JR., Armando. Política neoliberal e sindicalismo no Brasil. Xamã, 2009.

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FERREIRA, Carlos. Metamorfoses do trabalho e novas estratégias sindicais.  Brasília: Fundação Joaquim Nabuco, 2008.

GRAMSCI, Antonio.. Cadernos do Cárcere, v. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2000

HYMAN. Richard. Os Sindicatos e a desarticulação da classe operária. Revista Latino-Americana de Estudos do Trabalho, v. 2, n.4, , 1996.

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LINHART, Danièle. A desmedida do capital. São Paulo: Boitempo, 2007.

MARX, K.  A Ideologia Alemã. São Paulo: Hucitec, 1993.

______. O Capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

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MOLINA, Helder. Sindicato: movimento com sinais trocados. Entre a sua subversão e a adaptação ao novo sócio-metabolismo do modo de produção capitalista. Tese de Doutorado, UERJ, RJ, 2012

OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista. O ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003

TUMOLO, Paulo Sérgio. A CUT e a Formação Profissional: esboço de uma análise crítica, trabalho & crítica, GT Trabalho e Educação. ANPED, Rio de Janeiro, n.1, setembro de 1999.

SAVIANI, Dermerval. LDB- A Nova Lei da Educação: trajetória, limites e perspectivas. São Paulo: Cortez, 1998.

Helder Molina*
Licenciado e Bacharel em História (Universidade Federal Fluminense),
Mestre em Educação (Universidade Federal Fluminense),
Doutor em Políticas Públicas e Formação Humana (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Pós Doutor em Educação (Universidade de Brasília)
Professor de Economia Política, e de Políticas Públicas, da Faculdade de Educação da UERJ.

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