A ambígua defesa da identidade ocidental
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O apelo a uma identidade a ser recuperada e defendida torna-se uma âncora psicológica: a promessa de uma pertença estável à qual se agarra
Luciano Fazio
Nos últimos anos, no debate público italiano, ganhou destaque a chamada “defesa da identidade ocidental”. Não se trata apenas de um slogan ou de uma moda ideológica, mas de um apelo que se entrelaça com transformações profundas das sociedades europeias.
A globalização acelerou avanços e retrocessos. De um lado, maior inovação e uma circulação mais ampla de informações, mercadorias, pessoas e símbolos. De outro, a perda da primazia da Europa no mundo, em termos econômicos, políticos e também no campo das garantias sociais. Muitos vivenciam uma crescente insegurança material, ligada a fenômenos como o empobrecimento geral, os salários com forte perda de poder de compra desde os anos 2000, o aluguel da moradia cada vez mais caro e a crescente precarização do trabalho.
A isso se soma uma insegurança simbólica: a Itália parece oferecer poucas perspectivas de futuro. Não por acaso, muitos jovens buscam oportunidades no exterior. Para quem fica, muitas vezes — ao contrário do que acontecia com as gerações do século XX — torna-se difícil alcançar o bem-estar dos pais. Religião, ideologias políticas e até mesmo a ideia de progresso perderam a função de elemento agregador coletivo que tiveram no passado. Difunde-se assim um clima, ainda que latente, de frustração e ressentimento: a chamada “síndrome do cidadão do meio”, que vê “os de cima” cada vez mais ricos e “os de baixo” — os imigrantes, por exemplo — aproximarem-se de seus padrões de vida, levando-o a pensar: “Sou apenas eu que não avanço, penalizado injustamente por este sistema”.
Nesse contexto, o apelo a uma identidade a ser recuperada e defendida torna-se uma âncora psicológica: a promessa de uma pertença estável à qual se agarrar quando todo o resto parece fluido e incerto.
Encontrar a própria identidade responde a uma necessidade humana fundamental: saber quem se é, de onde se vem, a que história se pertence. A identidade não é constituída apenas por elementos objetivos e cognitivos, mas também afetivos e simbólicos. Tradições, língua e memória histórica oferecem segurança e senso de continuidade. Em uma sociedade cujo lema parece ser “consumo, logo existo”, e que gera necessidades difíceis de satisfazer, o sentido de identidade ajuda a não se perceber como perdedor.
Essa exigência de pertencimento cultural e simbólico, porém, às vezes se enrijece. Isso ocorreu, por exemplo, com a saída do Reino Unido da União Europeia (BREXIT) e ocorre hoje nas propostas de “remigração” (expulsão de todos os imigrados do país) que encontram apoio nos Estados Unidos e em alguns países europeus.
Frequentemente, o apelo à identidade ocidental mitifica o passado, apresentando-o como uma época feliz e ocultando suas contradições, limites e sofrimentos. Por vezes, a identidade é descrita por meio de uma simplificação, como algo imutável, natural, quase biológico. A própria Itália é o resultado de misturas, migrações, rupturas e posteriores recomposições. Em geral, nenhuma identidade nacional jamais foi um bloco compacto ou imutável, mas sim uma agregação dinâmica de elementos, em parte tradicionais e em parte novos, que cada geração reelabora de maneira diferente.
Particularmente alarmante é o deslizamento do “nós” para o “contra eles”. Sabe-se que uma das formas mais eficazes de agregar um grupo disperso consiste na identificação de um inimigo comum. Vemos essa lógica também na Itália de hoje, onde alguns políticos — principalmente os vinculados ao partido “Liga Norte” — definem a identidade pelo que ela exclui, tendo dificuldade em caracterizá-la positivamente. Assim, por exemplo, afirmam que seu núcleo seria a religião cristã, insistindo sobretudo em ritos e símbolos secundários — presépios, crucifixos em edifícios públicos, determinados cultos marianos — e removendo seu elemento central: a mensagem evangélica do amor e do cuidado com o outro. Desse modo, em vez do socorro ao samaritano ferido à beira da estrada, defende-se a ideia de deixar morrer no mar migrantes provenientes de países mais pobres. Trata-se de uma identidade definida pela agressividade contra o estrangeiro, o diferente, o “não ocidental”, e não por valores inclusivos.
Essa abordagem manipula as insatisfações difusas, transformando-as em raiva contra um alvo visível e frágil, ao qual se atribui arbitrariamente a responsabilidade por uma crise gerada por complexas transformações econômicas, sociais e culturais. Assim, justificam-se a discriminação e a exclusão das minorias. O ponto de ruptura mais evidente manifesta-se quando a cor da pele entra na definição da identidade: nesse caso, abandona-se o terreno cultural para entrar no racial, conceitualmente pobre e politicamente ainda mais perigoso. A cultura se aprende; a cor da pele, não.
Independentemente das intenções individuais, essa deriva acarreta riscos estruturais:
I) a redução da ideia de cidadania, que deixa de se basear em direitos, deveres e participação, passando a apoiar-se em critérios de origem, marcando uma regressão a concepções pré-modernas, anteriores até mesmo à Roma antiga;
II) a politização do medo, que transforma a identidade em um recurso eleitoral tanto mais eficaz quanto mais amedrontada estiver a sociedade;
III) o autoisolamento cultural: uma cultura que se defende apenas fechando-se deixa de evoluir, enquanto o diálogo e a capacidade de integrar novos elementos são condições essenciais para o futuro de uma civilização em um mundo em rápida mudança.
O debate atual na Itália está centrado na defesa da identidade, negligenciando a forma como ela é compreendida: como processo ou como fortaleza. No primeiro caso, a identidade é tradição viva, consciência e promoção dos valores de uma sociedade, capaz de incluir, selecionar e transformar-se sem se dissolver; é uma memória que dialoga com o presente e assume a responsabilidade pelo futuro. No segundo, a identidade é um conceito confuso, que sobrevive graças à exploração do medo e à oposição a supostos inimigos.
Infelizmente, nos países europeus, a retórica da fortaleza é mais simples, emotiva e mobilizadora — e é justamente por isso que se mostra politicamente sedutora. Contudo, o problema está posto e cabe travar o debate questionando e desmistificando concepções de identidade que implicam a discriminação e a exclusão de quem não faz parte da aldeia originária.
Luciano Fazio – Matemático pela Università degli Studi de Milão e pós-graduado em Previdência Social e Gestão de Fundos de Pensão pela FGV. Trabalha com consultoria e formação nas áreas de economia e previdência e é consultor externo do Dieese para assuntos previdenciários. Autor dos livros “O que é Previdência Social”, Loyola, 2016, e “O que é Previdência do Servidor Público”, Loyola 2020.
