Pânico moral, bolsonarismo e a ignorância como “valor de família” no Brasil das redes.

Marcos Verlaine*

O Brasil está caricato e tem talento especial: transformar conquista acadêmica relevante em guerra cultural, escolha privada em cruzada pública e vídeo banal em síntese nacional.

Foi exatamente isso que ocorreu dia desses, agora em fevereiro, quando Túlio Maravilha — ex-jogador e figura folclórica do futebol — decidiu anunciar, com orgulho performático, que proibiu a filha, Tulianne, de estudar em universidade pública.

Sim: ela foi aprovada em cursos concorridos, em instituições como UFRJ e Uerj, a jovem tinha vaga garantida no que há de mais importante no sistema público de ensino superior brasileiro. Mas o pai, a mãe, com anuência dela, resolveram vetar. Motivo?

“Valores”, “princípios” e aquele pacote retórico já conhecido: a universidade pública não se alinha ao pensamento da família.

O vídeo viralizou. E o que poderia ser apenas decisão doméstica virou mais um capítulo do espetáculo nacional: o da idiotia coletiva travestida de debate.

PÂNICO MORAL COMO POLÍTICA

A recusa não é apenas escolha educacional. Essa carrega gramática ideológica. Quando alguém diz que a universidade pública não combina com “os valores da família”, não está falando de deslocamento, infraestrutura ou logística. Está falando de imaginário: o da universidade como espaço contaminado, perigoso, inimigo, sujo e desabonador.

É o velho pânico moral da extrema-direita. Essa doença política que transforma salas de aula em trincheiras, professores em suspeitos e conhecimento em ameaça.

A universidade pública passa a ser descrita não como patrimônio social, mas como território hostil, quase como se fosse antro de perversão cultural.

O bolsonarismo, aliás, vive disso: não governa ideias, governa medos. Não disputa projetos, disputa fantasmas. A universidade vira espantalho perfeito.

IGNORÂNCIA ELEVADA À CATEGORIA DE PRINCÍPIO

O mais fascinante — e aqui entra a ironia inevitável — é que Túlio Maravilha nunca frequentou uma universidade pública. Ele próprio admite que não passou no vestibular e seguiu carreira no futebol. Nada de errado nisso: trajetórias são múltiplas. E escolhas também.

O problema é outro: quem não viveu a experiência agora se coloca como árbitro moral da instituição. É como alguém que nunca entrou numa biblioteca decretar que livros são perigosos porque “não combinam com a família”.

Ignorância, no Brasil contemporâneo, não é mais falta de informação. É identidade política. É orgulho. É bandeira.

O vídeo não revela pai zeloso. Revela cultura em que desconhecimento virou argumento e preconceito virou “princípio”.

UNIVERSIDADE PÚBLICA: BODE EXPIATÓRIO DA GUERRA CULTURAL

A crítica à infraestrutura — “está caindo aos pedaços” — disseram o pai, a mãe e a filha, é velha conhecida.

Sim, há problemas. Sim, há subfinanciamento. Mas curiosamente, a solução apresentada não é lutar pelo fortalecimento do público; é abandoná-lo em nome de moralidade abstrata.

A universidade pública brasileira, apesar de tudo, segue sendo uma das maiores ferramentas de mobilidade social do País. É onde se formam médicos, dentistas, professores, pesquisadores, cientistas. É onde os mais pobres entram e as vidas mudam.

Mas para a lógica da desinformação, isso pouco importa. O objetivo não é discutir educação. É alimentar o ressentimento. É fazer da universidade (pública) inimigo simbólico.

REDES DIGITAIS: TEMPLO DA CARICATURA

Como sempre, as redes fizeram o resto. De um lado, aplausos histéricos: “coragem”, “proteção contra doutrinação”, “família de verdade”.

Do outro, reações igualmente simplificadas, transformando o episódio em prova definitiva de que todo conservador odeia o conhecimento.

Entre uma caricatura e outra, o debate desapareceu. Sobrou o algoritmo. Esse “pastor eletrônico” que recompensa indignação e pune nuance.

O vídeo não viralizou por ser relevante. Viralizou porque é perfeito para o nosso tempo: curto, moralista, inflamável, ridículo, patético.

FALTA DE SENSO DO RIDÍCULO COMO SINTOMA NACIONAL

O Brasil vive era em que a falta de senso do ridículo virou capital político. O absurdo é celebrado como autenticidade. A grosseria, como coragem. A ignorância, como virtude.

E assim seguimos: transformando universidades (públicas) em inimigas imaginárias, substituindo educação por ressentimento, e confundindo “valores” com preconceito embalado para presente.

No fundo, o episódio não é sobre Túlio. Nem sobre a filha. É sobre nós.

Sobre como um país inteiro se deixa arrastar por pânico moral, desinformação e a eterna tentação de achar que pensar é perigoso demais.

Talvez a pergunta que reste seja simples e devastadora: o que exatamente essas pessoas têm tanto medo de aprender?

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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