Entre unilateralismo militar e desprezo às instituições, a política externa de Donald Trump expõe o risco de uma ordem internacional regida pela força e não pelo direito.

Marcos Verlaine*

A história das relações internacionais é marcada por tensões permanentes entre 2 princípios relevantes: o “império da lei” e a “lei do império”.

O primeiro se funda na ideia de que normas jurídicas, tratados e instituições multilaterais devem regular o comportamento dos Estados.

O segundo repousa na “velha lógica do poder”: quem tem mais força militar ou econômica impõe à vontade. No mundo contemporâneo, essa disputa ganhou novos contornos com a política externa de Donald Trump.

CRÍTICA DE JEFFREY SACHS

As críticas mais contundentes à essa postura, que tensiona e desorganiza o mundo, têm vindo de dentro dos próprios Estados Unidos.

O economista americano Jeffrey Sachs1 afirma que a conduta de Trump representa ameaça direta à estabilidade global e à própria ordem jurídica internacional construída após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Para Sachs, o problema não é apenas a retórica agressiva, mas o padrão de decisões que ignoram instituições, tratados e protocolos diplomáticos.

Trump é errático, arrogante e inconsequente. Essa postura pode levar toda a construção pós Segunda Guerra para o buraco.

PAPEL DO CONGRESSO

Um dos pontos centrais da crítica diz respeito à disposição de recorrer à força militar sem consulta adequada ao Legislativo. A Constituição dos Estados Unidos atribui ao Congresso a prerrogativa de declarar guerra. Ou seja, o Executivo precisa pedir ao Legislativo se pode ir à guerra.

Quando presidente decide iniciar ou ampliar conflitos sem esse aval, não se trata apenas de escolha estratégica: é ruptura com o princípio do Estado de Direito.

A crítica de Sachs é clara: ao contornar o Congresso, Trump substitui o império da lei pela lei do império.

ESCALADA CONTRA O IRÃ

O caso das ameaças e ações militares contra o Irã ilustra essa lógica. Não há evidências de que o país represente ameaça direta e imediata ao território dos Estados Unidos.

Ainda assim, a escalada retórica e militar alimenta espiral de tensão que pode envolver potências regionais e globais.

Em um sistema internacional interdependente e armado com arsenais de destruição em massa, decisões impulsivas deixam de ser apenas problema bilateral e passam a representar risco sistêmico.

A rigor, e a bem da verdade, nenhum país ameaça direta ou indiretamente os Estados Unidos. Nem a China, tampouco a Rússia, muito menos o Irã. Ninguém com bom senso quer se meter militarmente com os Estados Unidos.  

RISCO DE GUERRA GLOBAL

Sachs chega a usar termos duros para caracterizar esse comportamento. Nas análises públicas dele, descreve Trump como líder errático e imprevisível, cujas ações poderiam empurrar o mundo para conflitos de proporções globais.

A preocupação não é trivial: quando a principal potência militar do planeta age sem considerar os mecanismos de contenção diplomática e jurídica, todo o sistema internacional se torna mais instável.

DESPREZO PELA DIPLOMACIA

Outro elemento crítico é o desprezo pelos instrumentos tradicionais da diplomacia. A política externa americana sempre oscilou entre unilateralismo e cooperação multilateral.

Mesmo assim, ao longo das últimas décadas consolidou-se rede de tratados, organismos internacionais e canais diplomáticos destinados justamente a evitar que crises regionais se transformem em guerras globais.

Ignorar esses mecanismos significa enfraquecer o próprio sistema que garantiu a relativa estabilidade internacional desde o pós-guerra.

EROSÃO DA ORDEM INTERNACIONAL

Para Sachs, a consequência desse comportamento é mais profunda do que qualquer conflito específico.

O que está em jogo é a erosão das bases normativas que sustentam a ordem internacional.

Quando a maior potência do sistema demonstra que tratados podem ser descartados e que a diplomacia pode ser substituída por ameaças militares, abre-se precedente perigoso.

Outros países passam a considerar que a força também pode substituir o direito e a diplomacia que precedem os conflitos.

CONFLITO CONTRA O MUNDO

Nesse cenário, a crítica do economista é incisiva: Trump não estaria apenas em confronto com determinados países, como China ou Irã, mas em embate mais amplo contra os próprios princípios democráticos e institucionais que deveriam orientar a política externa americana.

Em outras palavras, trata-se de conflito não apenas geopolítico, mas também civilizatório.

FUTURO DA ORDEM MUNDIAL

A pergunta que emerge desse quadro é simples e inquietante: qual princípio prevalecerá no século 21? Se prevalecer esse que está sendo orientado por Trump, o mundo e a humanidade correm severos perigos.

Se a lógica do direito internacional for substituída pela lógica da força, o sistema global regressará à era de confrontos permanentes entre potências. O preço disso é (pode ser) incalculável.

Entre o império da lei e a lei do império, a escolha define não apenas o destino da política externa dos Estados Unidos, mas o futuro da própria ordem mundial.

E, como alerta Sachs, quando decisões impulsivas partem do centro do poder global, o risco deixa de ser teórico ou retórico e passa a ser ameaça real para todo o planeta.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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1 Jeffrey Sachs é um renomado economista americano, professor da Universidade Columbia e especialista líder mundial em desenvolvimento sustentável, combate à pobreza e políticas econômicas globais. Atua como conselheiro da ONU, sendo defensor dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e defensor de modelo econômico focado na inclusão social e sustentabilidade ecológica.

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