Neuriberg Dias*

As eleições gerais, em particular a presidencial, e seus resultados dizem mais sobre um conjunto de narrativas, paixões e crenças do que sobre vivências — ou seja, sobre os programas de governo que serão colocadas em prática com a eleição do novo presidente da República.

É verdade que ambos os candidatos que disputam o segundo turno optaram por essa estratégia de campanha diante de um ambiente polarizado. Porém, o presidente Lula e o candidato Flávio Bolsonaro, tem propostas e visões de mundo conhecidas por todos.

O candidato Lula, que disputa a reeleição, representa a experiência e a continuidade de sua gestão, que teve como prioridades o fortalecimento e a modernização do Estado, a ampliação das relações comerciais com todos os países e a promoção de um ambiente econômico e social equilibrado, com crescimento sustentável e previsibilidade para o país.

Na presidência construiu um legado de aprovação de leis nesse sentido, além da revisão fiscal com o novo arcabouço fiscal em substituição ao teto de gastos do seu antecessor, Jair Bolsonaro, que foi modificado várias vezes, houve aumento da renda dos trabalhadores, reajuste real no valor da aposentadoria, geração de empregos e expansão de negócios.

Três aspectos, no entanto, prejudicaram a percepção dessas entregas pela sociedade: a taxa de juros alta aplicada pelo Banco Central; os conflitos internacionais e guerras, com os tarifaços; e o ambiente polarizado, com o centro político dividido.

Ter deixado de enviar reformas estruturais ao Congresso tem seu preço, pois havia expectativa por parte de uma parcela da população. Mesmo com um governo sem maioria no Congresso, seria possível mobilizar pautas, como ocorreu com a reforma tributária, a redução da jornada de trabalho e a isenção do Imposto de Renda.

Flávio Bolsonaro se apresenta como o candidato da mudança uma nova opção. Sua trajetória como parlamentar, o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, e as gestões do mesmo campo político em vários Estados, porém, apontam para a retomada de uma agenda já conhecida pelo eleitorado.

O comportamento diante de crise como a Covid que não foi mais desastrosa porque o Congresso Nacional aprovou um pacote de medidas para mitigar efeitos econômicos e socais diz muito sobre o perfil da gestão sobre como resolver os problemas reais da sociedade e as relações com outros países.

E propostas concretas também permitem antecipar um eventual governo: a revisão de despesas públicas com a Super PEC ainda no forno, que o próprio governo Bolsonaro flexibilizou inúmeras vezes, a tentativa de uma maior flexibilização de direitos trabalhistas e previdenciários com a carteira verde e amarela e um novo regime de capitalização individual de aposentadorias, respectivamente. E o fim do ganho real para aposentados e da valorização do salário-mínimo também indicam sua retomada.

A reforma administrativa do Estado somente como premissa fiscalista para promover o corte de despesas e à transferência de serviços para a iniciativa privada por diversos instrumentos, além da revisão de políticas públicas que o candidato considera barreiras ao crescimento do país, também são conhecidas.

Portanto, ambos os candidatos têm suas posições e propostas conhecidas pela maioria da população. Caberá ao eleitor escolher sobre o caminho que por todos será percorrido nos próximos anos. A democracia não acaba nas urnas, ela começa de fato no dia seguinte com a participação na sociedade.

* Jornalista, Analista Político, Consultor de Relações Institucionais e Governamentais, Sócio-Diretor da Contatos Assessoria Política e Diretor de Documentação do DIAP.

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