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Por Rita Serrano (*)

Nesta campanha há uma clara disputa entre o enredo, representado pelo presidente Lula, e a narrativa, representada pelo senador Flávio Bolsonaro. Enquanto o primeiro entrega realizações e assume compromissos com a democracia, a ciência, o meio ambiente e a soberania, além de  políticas públicas de interesse coletivo, o segundo aposta na luta política, no entreguismo e no golpismo, escondido atrás de um discurso falsamente religioso e moralista.

Antes de adentrar o mérito da disputa, é preciso conceituar com clareza os dois termos que estruturam esta coluna.

Enredo, na acepção aqui empregada, diz respeito ao conteúdo concreto da ação política: são os fatos, as entregas, as políticas públicas efetivamente implementadas, os compromissos assumidos e cumpridos, a coerência entre discurso e prática. O enredo se materializa na vida das pessoas — no salário que aumenta, no remédio que chega, na escola que funciona, no emprego que se cria. É a substância da política, aquilo que permanece quando a poeira da retórica baixa.

Já narrativa, no sentido que aqui se atribui, é a construção discursiva que busca substituir os fatos por versões, as entregas por promessas vazias, os problemas por culpas alheias. A narrativa não se compromete com a realidade: ela se compromete com a eficácia eleitoral. É a política reduzida a marketing, a disputa transformada em espetáculo, o debate público convertido em palco de acusações sem lastro.

O presidente Lula, em todos os seus mandatos, manteve coerência entre discurso e prática em relação às políticas públicas. Neste terceiro mandato, reativou os espaços de diálogo e concertação, deu aumento real para o salário-mínimo e para os pisos de benefícios previdenciários e assistenciais, isentou os mais pobres do imposto de renda, repôs o poder de compra dos salários dos servidores ativos e aposentados, reconstruiu a máquina pública e promoveu concursos públicos, fortaleceu o SUS, com o programa Mais Especialidades, e recriou o Farmácia Popular. São entregas verificáveis, mensuráveis, que impactam diretamente a vida de milhões de brasileiros. Não se trata de promessas para o futuro, mas de realizações do presente, de um enredo que se escreve cotidianamente com políticas públicas de interesse coletivo.

Especificamente para os inscritos do Cadastro Único, com renda per capita até meio salário-mínimo, criou o Pé de Meia, zerou as parcelas do programa Minha Casa Minha Vida, criou o Gás para Todos, deu gratuidade para a tarifa de energia para o consumo até 80 kWh por mês, além de ter zerado os impostos sobre a cesta básica e instituído o cashback no âmbito da reforma tributária. Para o próximo mandato, além de manter e valorizar os programas atuais, ampliar o investimento em saúde e educação, vai garantir: fim da escala 6x1, assegurando mais um dia de folga para os trabalhadores, tarifa zero no transporte coletivo urbano e acesso gratuito ao pessoal de baixa renda às canetas emagrecedoras, dentre outras propostas do programa de governo. Com Lula não tem enganação: a entrega é certa. O enredo fala por si.

Já Flávio Bolsonaro é o clone do pai dele, Jair Bolsonaro, cujo governo deixou um legado de negação da ciência, de ataque à democracia e desmonte dos serviços e das políticas públicas, incluindo a morte de mais de 700 mil pessoas durante a pandemia do coronavírus. O programa do Flávio Bolsonaro tem como pontos centrais anistiar os golpistas, armar a população, vender as estatais e entregar as riquezas minerais e petrolíferas do país aos governos estrangeiros, especialmente aos Estados Unidos de Trump. É um programa que não propõe nada de concreto para melhorar a vida do povo brasileiro: apenas reedita velhas bandeiras do atraso, agora travestidas de novidade.

A campanha é toda centrada em narrativa rasa, cujo núcleo central consiste em apontar problemas e acusar Lula e a esquerda como responsáveis por eles, sem propor nenhuma solução concreta. Só aponta o dedo, vale-se da religião e do moralismo para assustar as famílias com ameaças fantasiosas, que nunca aconteceram nem irão acontecer nos governos do PT, como a obrigatoriedade de banheiro unissex, de casamento gay e de invasão de propriedade privada, além do discurso batido de combate ao crime organizado e à corrupção. É a política do medo, da mentira organizada, da desinformação como método. Enquanto o enredo se constrói com realizações, a narrativa se sustenta com fantasmas.

Como é que alguém com o histórico do Flávio Bolsonaro — conhecido como defensor de miliciano, praticante de rachadinha e frequentador de orgias — tem moral para falar em combate à violência e à corrupção ou em defesa da família? A pergunta não é retórica: ela expõe a contradição fundamental entre o discurso e a prática de quem quer que se apresente como salvador da pátria. A narrativa, quando desprovida de enredo, não resiste ao escrutínio dos fatos. E os fatos, ao contrário das versões, não se dobram à conveniência eleitoral.

O eleitor brasileiro tem, portanto, uma escolha clara: de um lado, o enredo de quem entrega, de quem governa para todos, de quem respeita a democracia e a ciência; de outro, a narrativa de quem apenas explora o medo, a desinformação e o ódio. A história recente do país já mostrou o que significa um governo sem enredo, sustentado apenas por narrativa: negacionismo, mortes evitáveis, destruição de políticas públicas, ataques às instituições. O Brasil não pode voltar a esse passado. A escolha entre enredo e narrativa não é apenas eleitoral: é civilizatória.

(*) Rita Serrano é presidente do Diap. Ex-presidente da Caixa Econômica Federal. Doutoranda em Administração

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