PL, o partido da intervenção estrangeira
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Quando faltam argumentos internos, parte da extrema-direita brasileira volta os olhos para Washington e transforma a soberania nacional em instrumento de conveniência política.
Marcos Verlaine*
É o patriotismo de ocasião, de conveniência, de fancaria, esse do bolsonarismo. A história os punirá gravemente. Aqui lembramos a velha frase do pensador inglês Samuel Johnson, dita em 1775, e serve para criticar oportunistas que se escondem atrás de causas nobres para defender interesses pessoais: “o ‘patriotismo’ é o último refúgio dos canalhas”.
Poucas contradições são tão evidentes na política brasileira contemporânea quanto a de setores do chamado núcleo duro do bolsonarismo que, ao mesmo tempo em que se apresentam como defensores intransigentes da pátria, da bandeira e da soberania nacional, recorrem repetidamente a governos, autoridades e instituições estrangeiras para interferir em conflitos internos do Brasil.
A mais recente iniciativa do deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), líder do PL na Câmara, ao acionar a embaixada dos Estados Unidos para questionar decisão do TSE1, insere-se numa sequência de episódios que já se tornaram padrão político.
Sempre que enfrentam derrotas institucionais, investigações judiciais ou decisões do sistema de Justiça brasileiro, lideranças bolsonaristas buscam respaldo externo para pressionar autoridades nacionais e constranger instituições da República.
O fenômeno não é novo. O que chama atenção é sua frequência e sua naturalização. E ausência de punição por parte, principalmente, da Câmara.
Internacionalização do conflito interno
Em democracias maduras, divergências entre Poderes são resolvidas por mecanismos constitucionais internos. Recursos judiciais, debates parlamentares, controle social e disputa política constituem os instrumentos legítimos para enfrentar decisões consideradas injustas ou equivocadas.
O que se observa, entretanto, é tentativa recorrente de deslocar disputas domésticas para o cenário internacional, especial e particularmente para os Estados Unidos.
Nos últimos anos, integrantes do bolsonarismo buscaram apoio de parlamentares americanos, influenciadores conservadores estrangeiros, organismos internacionais e até integrantes do governo dos Estados Unidos para denunciar supostas perseguições políticas, questionar decisões do Supremo Tribunal Federal e contestar a legitimidade de instituições brasileiras.
O caso que agora envolve Sóstenes Cavalcante segue exatamente essa lógica. Em vez de apresentar provas que sustentem a acusação feita contra o PT ou contestar judicialmente a decisão do ministro André Mendonça, o parlamentar decidiu recorrer à embaixada de potência estrangeira para validar a narrativa política doméstica.
Trata-se de escolha reveladora.
Soberania como discurso seletivo
O episódio expõe a curiosa concepção de soberania nacional.
Quando organismos internacionais criticam políticas ambientais, ameaças golpistas ou violações de direitos, setores da extrema-direita costumam reagir com indignação e acusar estrangeiros de interferência indevida nos assuntos brasileiros.
Mas essa mesma indignação desaparece quando a interferência externa pode servir aos interesses políticos desses setores.
A soberania deixa então de ser princípio e passa a ser ferramenta retórica, utilizada conforme a conveniência do momento.
O problema não está em manter relações diplomáticas ou dialogar com governos estrangeiros. Isso faz parte da vida internacional de qualquer democracia. O problema surge quando atores políticos procuram substituir os canais institucionais brasileiros pela tutela simbólica de outra nação.
Nesse contexto, o patriotismo deixa de ser compromisso com o País e se transforma em instrumento de mobilização política.
A velha tentação do protetorado
A dependência psicológica de validação estrangeira possui raízes profundas na história latino-americana.
Durante décadas, elites políticas e econômicas do subcontinente recorreram a capitais estrangeiras em busca de apoio para resolver disputas internas. Em vez de fortalecer instituições nacionais, procuravam árbitros externos capazes de legitimar seus interesses.
O comportamento observado em parte do bolsonarismo reproduz essa tradição.
Ao recorrer constantemente aos Estados Unidos para denunciar decisões judiciais, pressionar autoridades brasileiras ou reforçar narrativas políticas internas, esses grupos transmitem mensagem implícita: as instituições brasileiras não seriam capazes de resolver os próprios conflitos sem a chancela de Washington.
Trata-se de visão incompatível com qualquer concepção séria de independência nacional.
Erosão da confiança institucional
Há ainda consequência mais profunda. Quando lideranças políticas buscam apoio externo para contestar decisões de tribunais nacionais, contribuem para corroer a confiança pública nas instituições democráticas.
O bolsonarismo está sempre atrás de causar distúrbios internos, a fim de corroer por dentro a democracia e o Estado de Direito.
Nenhuma democracia funciona adequadamente se seus atores políticos aceitam as regras apenas quando vencem.
O respeito às instituições não significa concordância permanente com suas decisões. Significa reconhecer que divergências devem ser enfrentadas dentro da ordem constitucional existente.
Transformar embaixadas estrangeiras em instâncias paralelas de recurso político enfraquece esse princípio e alimenta a percepção de que a legitimidade das instituições nacionais depende da aprovação de atores externos.
O verdadeiro patriotismo
O Brasil possui problemas reais e profundos. Suas instituições são imperfeitas. Seus tribunais podem ser criticados. Seus governos podem ser contestados. Seus partidos podem ser investigados. Tudo isso faz parte da democracia.
Mas nenhuma dessas circunstâncias justifica a busca permanente por tutela estrangeira em conflitos internos.
O verdadeiro compromisso com a soberania nacional não consiste em exibir bandeiras, cantar hinos ou repetir slogans patrióticos. Consiste em defender que os destinos do País sejam decididos pelos brasileiros, segundo as leis, as instituições e a Constituição nacional.
Quem recorre continuamente a potências estrangeiras para arbitrar disputas domésticas não fortalece a Nação. Ao contrário, contribui para enfraquecer a autonomia política que diz defender.
E essa talvez seja a maior contradição do bolsonarismo: em nome de suposto nacionalismo, que em geral é estridente, acaba frequentemente agindo como se o Brasil precisasse de autorização externa para governar a si próprio.
E de ser espécie de protetorado dos Estados Unidos. Nisso, eles seguem o líder deles, que bate continência para a bandeira dos Estados Unidos.
Os verdadeiros patriotas podem usar, sem medo de errar, contra esses apátridas, a palavra de ordem que cabem para eles: “Brasil, quem te ama, não te USA”.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 Sóstenes aciona embaixada dos EUA após Mendonça determinar remoção de vídeo - https://www.cnnbrasil.com.br/politica/sostenes-aciona-embaixada-dos-eua-apos-mendonca-determinar-remocao-de-video/#goog_rewarded - acesso em 22.06.26
