A tentativa de reproduzir modelo de liderança baseado no conflito permanente, na desinformação e na personalização do poder revela menos continuidade do que esgotamento político: a repetição perde a força do original e expõe os limites do simulacro.

Marcos Verlaine*

Em O 18 de Brumário, de Luís Bonaparte, Karl Marx observou que grandes acontecimentos e personagens históricos tendem a reaparecer, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”1.

A frase, embora frequentemente citada de forma isolada, constitui reflexão sobre processos históricos em que a repetição nunca é mera reprodução: essa ocorre em circunstâncias distintas, com protagonistas diferentes e resultados quase sempre menos grandiosos, mas nem por isso menos reveladores e terríveis.

No Brasil, a metáfora permanece atual para compreender determinados fenômenos políticos. Não porque a história se repita mecanicamente, mas porque determinadas estratégias discursivas insistem em reaparecer, mesmo quando as condições institucionais, sociais, econômicas e políticas já não são as mesmas.

É nesse contexto que se pode analisar a tentativa de reprodução do estilo político inaugurado por Jair Bolsonaro, na campanha de 2018, e posteriormente, na Presidência (2019-2022).

Da liderança ao simulacro

Toda liderança de forte caráter personalista enfrenta desafio inevitável: sua sucessão.

Quando a identidade política está excessivamente vinculada à figura de um indivíduo, sua reprodução tende a transformar-se em imitação. O que originalmente produziu impacto converte-se em rotina; o gesto que antes mobilizava apoiadores passa a parecer previsível; a ruptura transforma-se em fórmula.

Esse fenômeno é conhecido pela ciência política. Lideranças carismáticas dificilmente conseguem ser transplantadas para terceiros porque dependem de circunstâncias históricas específicas, de crises particulares e da construção de identidade própria.

Não basta repetir o discurso. É preciso reproduzir o contexto que o tornou eficaz. Algo que é praticamente impossível.

Política do conflito permanente

Ao longo dos últimos anos, consolidou-se repertório relativamente estável de comunicação política associado ao bolsonarismo.

Entre seus elementos mais conhecidos estão o questionamento da confiabilidade das instituições eleitorais, a permanente confrontação com veículos tradicionais de imprensa, a construção de narrativas de antagonismo entre “povo” e “sistema”, a intensa utilização das redes digitais como arena principal da disputa política e a internacionalização de conflitos domésticos mediante a aproximação com lideranças estrangeiras ideologicamente alinhadas.

Independentemente da avaliação que se faça dessas estratégias, trata-se de método político relativamente bem definido.

O problema surge quando esse repertório deixa de responder às circunstâncias concretas e passa a funcionar apenas como repetição automática e farsesca.

Nesse momento, a política deixa de produzir novidades e passa a reproduzir símbolos.

Peso da comparação

Qualquer sucessor de liderança dominante carrega ônus inevitável: será permanentemente (mal) comparado ao original.

No caso brasileiro, essa comparação torna-se ainda mais intensa porque Jair Bolsonaro continua sendo a principal referência simbólica do campo político que ajudou a consolidar, a extrema direita.

A consequência é paradoxal. Quanto mais o eventual herdeiro procura reproduzir gestos, discursos e estratégias do líder original, maior tende a ser a percepção pública de que lhe falta identidade própria.

A imitação reforça precisamente aquilo que se pretende esconder: a ausência de originalidade. E mais, a ausência de liderança para encarnar a condução do processo que deseja protagonizar.

Legado do governo Bolsonaro

Essa discussão tampouco pode ser dissociada da avaliação histórica do governo Jair Bolsonaro.

A administração dele continuará sendo objeto de intenso debate entre historiadores, cientistas políticos e juristas durante muitos anos. Contudo, alguns aspectos já ocupam lugar central nesse balanço.

A condução da pandemia de covid-19 permanece como um dos capítulos mais controversos do período.

O Brasil registrou mais de 700 mil mortes pela doença, e parte expressiva da comunidade científica, organismos internacionais, pesquisadores e investigações parlamentares criticou as decisões do governo relacionadas à gestão da crise sanitária, ao atraso na aquisição de vacinas, à promoção de medicamentos sem eficácia comprovada e aos frequentes conflitos com recomendações técnicas.

Independentemente das divergências políticas, esse episódio tornou-se elemento incontornável da memória institucional brasileira. Por isso, qualquer tentativa de reeditar aquele modelo político inevitavelmente carrega também o peso dessa herança trágica.

Risco da política performática

Outro aspecto relevante é a crescente substituição da política, do conteúdo do debate público, pela performance.

Nas democracias contemporâneas, a comunicação tornou-se parte inseparável da atividade política. Entretanto, quando essa comunicação passa a substituir completamente a formulação de políticas públicas, instala-se uma lógica em que o impacto simbólico importa mais do que o conteúdo das decisões.

Nesse ambiente, controvérsias permanentes tornam-se instrumento de mobilização.

Ataques à imprensa, confrontos com instituições, declarações provocativas e episódios cuidadosamente desenhados para produzir repercussão digital passam a ocupar espaço superior ao debate sobre programas de governo.

A consequência é um ambiente público marcado pela polarização constante e pela dificuldade de construção de consensos mínimos.

Instituições e democracia

A vitalidade da democracia depende menos da força de indivíduos e mais da solidez de suas instituições.

Questionamentos às urnas eletrônicas, acusações sem demonstração consistente — evidências — contra órgãos públicos, conflitos permanentes com o Poder Judiciário e hostilidade sistemática contra profissionais de imprensa produzem tensão política.

Quando tais práticas deixam de constituir crítica fundamentada e passam a integrar estratégia permanente de deslegitimação institucional, seus efeitos ultrapassam a disputa entre governo e oposição.

Nesse cenário, o debate desloca-se das políticas públicas para a própria legitimidade das regras democráticas.

Essa mudança de eixo representa custo elevado para qualquer sociedade.

Entre o original e a cópia

A política brasileira mostra, mais uma vez, que lideranças personalistas dificilmente se tornam modelos facilmente reproduzíveis. O carisma não é hereditário.

A autoridade política tampouco se transfere automaticamente por vínculos familiares ou afinidades ideológicas.

Quando a repetição substitui a construção de identidade própria, o resultado tende a revelar mais as limitações do imitador do que a força do modelo original.

Talvez seja justamente esse o sentido contemporâneo da conhecida observação de Marx.

Não porque a história se repita literalmente, mas porque determinadas experiências políticas, ao tentarem reproduzir antigas fórmulas sem responder às novas circunstâncias, deixam de representar novo capítulo da história para se tornar apenas sua representação.

E toda representação excessivamente fiel corre o risco de perder aquilo que distingue a política da encenação: a capacidade de produzir respostas originais para problemas igualmente novos.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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1 O significado da frase de Marx. Na tragédia, o primeiro evento histórico é real, sério, profundo e causa dor verdadeira. No contexto do livro, Marx falava de Napoleão Bonaparte. Na farsa, a repetição do evento perde o sentido original e vira imitação fraca, cômica, patética ou farsesca. Marx falava do sobrinho de Napoleão — Luís Napoleão Bonaparte (posteriormente coroado como Napoleão 3º) —, que tentou copiar o tio sem ter a mesma importância e carisma.

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