Quando a baixaria vira projeto político
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Renan Santos expõe a política do ataque pessoal e da provocação, em detrimento de propostas e argumentos para enfrentar os problemas do Brasil.
Marcos Verlaine*
Há algo profundamente errado quando debate entre candidatos à Presidência da República se transforma em sucessão de provocações, ataques pessoais, desinformação e frases calculadas para produzir cortes nas redes.
O debate desta semana na Band, em vez de elevar a discussão sobre os destinos do Brasil, expôs o empobrecimento do discurso político e a distância entre parte dos candidatos e a dimensão dos problemas que o País precisa enfrentar.
A postura de Renan Santos, candidato do Missão, foi particularmente reveladora. Ao escolher o presidente Lula (PT) como alvo preferencial, recorreu à virulência, a palavras depreciativas e a ataques que chegaram à primeira-dama Janja Lula da Silva1. Mais do que divergência política, o que se viu foi a tentativa de transformar o adversário em personagem de escárnio.
É legítimo — e indispensável — criticar governos, presidentes e adversários. A democracia pressupõe confronto de ideias, cobrança, fiscalização e até duras divergências. O que não se pode confundir com liberdade de expressão é a substituição do argumento pela ofensa e da crítica pela desqualificação pessoal.
O episódio não é apenas sobre Renan Santos. Trata-se do sintoma de transformação mais ampla da política brasileira.
Política dos cortes
Desde a campanha presidencial de 2018, o debate público brasileiro sofreu deterioração perceptível. Durante o governo Jair Bolsonaro, a política institucional foi frequentemente atravessada pela lógica do conflito permanente, pela produção de inimigos e pela circulação de informações falsas ou distorcidas.
A comunicação política passou a obedecer cada vez mais à lógica das redes digitais. E as redes não necessariamente premiam o melhor argumento. Premiam aquilo que chama atenção.
Discurso equilibrado, explicação técnica sobre política econômica ou proposta consistente para melhorar a saúde pública dificilmente alcançam a mesma velocidade de frase ofensiva, de acusação explosiva ou de provocação destinada a gerar indignação.
O resultado é perverso: o candidato ou agente político passa a falar não para convencer o eleitor, mas para alimentar o algoritmo. A política dos grandes projetos é substituída pela política dos grandes cortes de vídeo.
Algoritmo como palanque
As plataformas digitais introduziram mudanças estruturais no modo como a política é consumida. O eleitor já não necessariamente acompanha entrevista ou debate inteiro. Recebe fragmentos.
Nesse ambiente, fala de 20 segundos pode ter mais impacto do que 1 hora de exposição de propostas. E quanto mais emocional, agressivo ou controverso for o fragmento, maior a possibilidade de circulação. É aí que a indignação passa a ser transformada em estratégia eleitoral.
O candidato que dispõe de pouco tempo de televisão, baixa intenção de voto ou reduzido conhecimento público pode tentar compensar essa desvantagem produzindo controvérsia. Frase ofensiva contra Lula, Bolsonaro ou qualquer outro adversário pode gerar milhões de visualizações, comentários e republicações.
A notoriedade passa a ser obtida não necessariamente pela qualidade das ideias, mas pela capacidade de provocar, desrespeitar ou causar polêmica absurda.
Renan Santos parece ter compreendido essa lógica. Ao atacar Lula de maneira particularmente agressiva e desrespeitosa, constrói personagem político que depende do conflito para ganhar espaço. Trata-se de estratégia de comunicação que pode produzir visibilidade, mas não necessariamente produz credibilidade.
Quando adversário vira inimigo
A polarização também contribuiu decisivamente para essa degradação. Nas democracias maduras, adversários políticos podem defender projetos radicalmente diferentes e, ainda assim, reconhecer a legitimidade uns dos outros. Na política brasileira contemporânea, entretanto, consolidou-se dinâmica na qual o adversário é frequentemente apresentado como ameaça existencial.
Nesse ambiente, discutir políticas públicas parece secundário. O importante é derrotar o outro.
A política deixa de ser compreendida como disputa entre projetos de sociedade e passa a ser tratada como guerra entre torcidas. O eleitor não é mais convidado a comparar propostas; é convocado a escolher um lado e atacar o outro.
É justamente aí que candidatos com pouco a apresentar programaticamente encontram terreno fértil. Quanto mais raso o debate, maior o espaço para a provocação, o desrespeito e a chacota.
Renan e a política do escândalo
A atuação de Renan Santos no debate da Band merece atenção porque representa tentativa explícita de transformar a agressividade em identidade política.
O candidato do Missão não parece interessado apenas em apresentar diferenças programáticas em relação ao governo Lula. A estratégia dele passa pela desqualificação do adversário, pelo ataque pessoal e pela provocação.
Trata-se de fórmula conhecida: produzir choque, obter reação e transformar a reação em novo conteúdo para as redes. O problema é que essa engrenagem pode funcionar eleitoralmente justamente porque reduz a política àquilo que essa deveria combater: a superficialidade.
Quando a provocação vira método, o debate deixa de ser espaço de esclarecimento. Quando a mentira ou a meia-verdade é utilizada como arma, o eleitor deixa de receber informação e passa a consumir propaganda. Quando a família do adversário é arrastada para o confronto, ultrapassa-se a fronteira elementar de civilidade.
Criticar Lula é parte da democracia. Desrespeitá-lo — ou atacar a companheira dele é recurso político — não acrescenta absolutamente nada ao debate nacional.
O que a ofensa esconde
Há ainda questão política mais profunda. A agressividade muitas vezes funciona como substituta da densidade. Quanto menor a capacidade de apresentar respostas convincentes para problemas complexos, maior pode ser a tentação de simplificá-los e personalizá-los.
O Brasil não precisa apenas de candidatos capazes de denunciar problemas. Precisa de candidatos capazes de explicar como pretendem resolvê-los.
Como aumentar a produtividade e os salários? Como reduzir a desigualdade? Como enfrentar o déficit habitacional? Como melhorar a educação básica? Como ampliar investimentos? Como combater o crime organizado sem violar direitos? Como modernizar o Estado? Como enfrentar a emergência climática? Como inserir o País na nova economia tecnológica?
São essas perguntas que deveriam ocupar o centro de um debate presidencial. Não a vida privada dos adversários.
Democracia não pode
ser refém do engajamento
É preciso reconhecer que o problema não está apenas nos chamados políticos. Há engrenagem econômica e tecnológica que favorece essa pseudo radicalização. E nem se trata de radicalizar; porque radicalizar é tentar ir à raiz do problema.
As plataformas disputam tempo e atenção. Conteúdo que provoca reação tende a ser mais compartilhado. A política percebe isso e se adapta. O candidato aprende rapidamente que 5 minutos de propostas podem render menos alcance do que frase agressiva de 10 segundos.
Mas aquilo que funciona para o algoritmo pode ser péssimo para a democracia. Uma sociedade não pode escolher seus governantes exclusivamente pela capacidade de produzir indignação.
O debate público precisa recuperar o valor da argumentação, da informação, da responsabilidade e, sobretudo, da divergência civilizada. Não se trata de exigir política sem conflitos. Conflito é inerente à democracia. Trata-se de impedir que o conflito destrua a possibilidade de diálogo.
O Brasil merece mais
O episódio da Band deveria servir como alerta. O Brasil merece mais que Renans e afins.
Depois de anos de sectarismo, fake news, ataques pessoais e política transformada em espetáculo, o País precisa de inflexão. Não porque divergências devam ser escondidas, mas exatamente porque essas precisam ser enfrentadas com mais inteligência.
A Presidência da República não é palco para influencers em busca de viralização. É o principal posto político do País.
Quem pretende ocupá-lo precisa demonstrar capacidade para governar sociedade complexa, formular políticas públicas, negociar com instituições, administrar conflitos e respeitar aqueles que pensam diferente.
Renan Santos pode escolher a provocação como método eleitoral. Mas o País não deveria aceitar que a provocação seja confundida com projeto político. O problema não é apenas o tom de candidato.
É o risco de uma democracia inteira se acostumar com a ideia de que gritar é argumentar, ofender é criticar e viralizar é governar.
Se esse for o novo padrão do debate presidencial, ou do debate político, o Brasil não estará apenas diante de eleição empobrecida. Estará diante de preocupante redução da própria qualidade da democracia.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 Uma das frases que Renan Santos proferiu sobre Lula e a primeira-dama Janja: “Ou [Lula] está bêbado ou está com a Janja. Melhor ficar bêbado nessas horas, né, presidente?”. Ele também disse que Lula preferiu ficar com “aquela Janja” a comparecer ao debate, insinuando que o presidente teria “companhias melhores”.
