A defesa da família ocupa lugar central no discurso da extrema direita, particularmente do bolsonarismo, e terá forte peso na campanha eleitoral de 2026. Família, moral, religião e valores tradicionais são apresentados como fundamentos de sociedade supostamente ameaçada pelo que seus porta-vozes denominam, genericamente, de “ideologia de gênero”, “destruição da família” ou “inversão de valores”.

Luciano Fazio*

A família aparece, assim, não apenas como instituição social a ser protegida, mas como marcador de identidade política. Quem se coloca ao lado da “família tradicional” é apresentado como defensor do bem, da moral e da própria sociedade; quem não segue esse modelo pode ser taxado como “do mal”, dentro de cenário apresentado como “guerra espiritual”.

Mas cabe perguntar: que família é essa que determinados setores do bolsonarismo dizem defender? E que contradições existem entre essa defesa e seu discurso político?

Mulher entre família e submissão

A primeira questão está na concepção do papel da mulher.

Em setores do imaginário conservador incorporado pelo bolsonarismo, a mulher ideal é apresentada, sobretudo, como esposa, mãe, cuidadora e responsável pela formação moral dos filhos. A valorização da mulher “recatada e do lar” pode colocar em segundo plano a autonomia econômica, profissional, intelectual e política.

Não há nada de ilegítimo em a mulher escolher dedicar-se prioritariamente à família e à criação dos filhos. O problema surge quando essa escolha individual é transformada em modelo social obrigatório, utilizado para deslegitimar outras maneiras de ser mulher, esposa ou mãe.

Uma coisa é valorizar a maternidade e a dedicação à família. Outra é transformar esses papéis em norma ou padrão para todas as mulheres.

Quando a defesa da família justifica divisão rígida de papéis, à mulher é reservado, sobretudo, o lugar de mãe e cuidadora, enquanto ao homem cabe a autoridade e a condição de provedor.

Política verdadeiramente orientada à proteção da família deveria fazer o contrário: reconhecer a autonomia de homens e mulheres, combater a violência doméstica, assegurar condições para a criação dos filhos e permitir diferentes projetos de vida.

Família protegida pela falta de informação

Outra questão aparece na maneira como determinados setores do bolsonarismo abordam a sexualidade.

A educação sexual, o conhecimento sobre o próprio corpo, a prevenção de abusos e doenças e o diálogo sobre orientação sexual são, em alguns desses discursos, apresentados como ameaças aos valores familiares. Falar sobre sexualidade pode ser tratado como incentivo às práticas impróprias ou como tentativa de induzir crianças e adolescentes à determinadas escolhas.

Algo foi virado “de cabeça para baixo”.

Informação não é incentivo. Conhecimento não é propaganda. Educação não é doutrinação.

Educação sexual adequada à idade não significa induzir criança ou adolescente a determinada orientação sexual. Significa oferecer conhecimento sobre o próprio corpo, limites, respeito, proteção e prevenção de abusos, além de condições para reconhecer situações de violência ou exploração.

O silêncio não elimina a sexualidade; apenas dificulta sua compreensão e pode tornar mais difícil identificar e denunciar abusos.

A chamada “defesa da família” pode, assim, produzir o efeito contrário ao que afirma buscar. Família segura não é aquela em que determinados assuntos não podem ser mencionados, mas àquela em que existe confiança para discuti-los.

Quando a diferença se transforma em ameaça

O problema se torna ainda mais evidente quando se observa o tratamento dispensado às pessoas que não se enquadram no modelo familiar tradicional.

Em setores do discurso bolsonarista, a homossexualidade é apresentada como ameaça aos valores familiares. A diferença deixa de ser reconhecida como parte da sociedade e passa a ser tratada como perigo moral.

É nesse contexto que podem ser lembradas manifestações públicas do ex-presidente Jair Bolsonaro sobre a homossexualidade, entre essas a conhecida declaração de que preferiria que um filho morresse a que fosse homossexual.

Concepção de família baseada no amor, no cuidado e na proteção deveria conduzir à conclusão oposta: filho não deixa de ser filho porque possui orientação sexual diferente daquela que os pais desejariam.

A família que aceita apenas aqueles que correspondem às suas expectativas não é necessariamente mais forte. Pode tornar-se lugar de medo, quando o afeto passa a depender da conformidade.

Em nome da defesa da família, pode-se acabar defendendo concepção que exclui justamente aqueles que mais necessitam de acolhimento.

Liberdade também é reconhecer o outro

Há paradoxo na maneira como setores da direita radical utilizam o conceito de liberdade.

A liberdade de expressão, a liberdade individual e a liberdade econômica são frequentemente apresentadas como valores fundamentais. Mas a liberdade democrática não pode significar apenas o direito de defender os próprios valores e interesses. Essa pressupõe também reconhecer a liberdade do outro — daquele que pensa, acredita, ama ou organiza a vida de maneira diferente.

É perfeitamente possível defender concepção conservadora de família e, ao mesmo tempo, respeitar o direito de outras pessoas de adotarem formas diferentes de organização familiar. O problema surge quando a própria diferença passa a ser considerada ilegítima ou moralmente inferior.

Quando o diferente deixa de ser interlocutor e passa a ser tratado como inimigo moral, a liberdade perde sentido democrático.

É legítimo discordar. É legítimo defender convicções religiosas ou morais fortes. É legítimo ser conservador e contrário a determinadas transformações sociais. O que não é compatível com sociedade democrática é transformar essa discordância em desumanização, humilhação ou perseguição do outro.

Defender a própria liberdade implica reconhecer que essa também pertence ao outro.

Paradoxo do cristianismo sem perdão

Essa concepção de família tradicional é, em determinados setores do bolsonarismo, reforçada pela dimensão religiosa. Símbolos cristãos são mobilizados e o movimento apresenta-se como defensor do cristianismo diante de suposta ameaça moral.

A religião pode, assim, ser instrumentalizada para sustentar identidade política apresentada como se fosse a única autenticamente cristã.

Isso é especialmente problemático quando a retórica política se distancia de valores centrais dos Evangelhos.

A mensagem de Jesus de Nazaré está associada ao amor ao próximo, ao perdão, à misericórdia, ao acolhimento dos marginalizados e à rejeição da hipocrisia moral. O adversário não aparece como alguém que deva necessariamente ser destruído, mas como outra pessoa a quem também é devido o amor.

O problema não está na existência de convicções religiosas ou morais fortes, nem na oposição a determinadas transformações sociais. Está no que se faz politicamente com essas convicções.

Quando a divergência se transforma em “guerra santa” contra quem não representa ameaça concreta, quando se estimula o ódio e se promove a humilhação, a exclusão ou a perseguição de quem pensa ou vive de maneira diferente, surge incoerência difícil de ignorar: como conciliar identidade cristã com discurso político baseado na guerra contra o outro?

Afinal, que família está sendo defendida?

As questões anteriores tornam mais clara a pergunta fundamental. Não se trata apenas de saber se alguém é “a favor da família”. É preciso perguntar: “A favor de que família?”

Família a ser protegida pelo Estado é aquela sem violência, em que mulheres e homens possuem igual dignidade e liberdade para construir seus projetos de vida; em que crianças e adolescentes encontram proteção contra abuso e abandono; em que pais e filhos podem conversar sobre sexualidade sem medo; em que pessoa homossexual não precisa esconder quem é para continuar sendo amada pelos familiares; e em que diferenças de opinião não rompem necessariamente os vínculos afetivos.

Diante dos muitos casos de violência doméstica, abuso de autoridade e intolerância, é preciso reconhecer que a família não é, por si só, sinônimo de amor, proteção ou segurança. Essa também pode ser espaço de desrespeito, imposição, violência e autoritarismo.

Por isso, a defesa da família não deveria começar pela imposição de um único modelo familiar, mas pela defesa das relações de afeto, respeito, cuidado e responsabilidade que fazem com que família seja, de fato, ambiente de relações humanas de qualidade.

No fundo, defender a família deveria significar defender as pessoas que a constituem — sua dignidade, sua liberdade, sua segurança e seu direito de serem amadas sem que o afeto esteja condicionado à conformidade.

A verdadeira defesa da família não é a defesa de um modelo contra os outros. É a defesa das pessoas que fazem de uma família um lugar de amor, cuidado, respeito e liberdade.

(*) Matemático pela Università degli Studi de Milão/Itália, especialista em Previdência pela FGV e autor do livro "O que é previdência do servidor público", Ed. Loyola, 2020.

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