Flávio Bolsonaro implodiu o debate político
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E o fez conscientemente. Reduziu o debate público a acusações, escândalos e ressentimentos, enquanto questões decisivas para o futuro do País ficaram em segundo plano.
Marcos Verlaine*
O debate sobre o Brasil real foi e continua, em grande medida, interditado. Nas eleições de 2018, 2022 e agora em 2026, a responsabilidade por esse processo recai sobretudo sobre a extrema direita, com a contribuição da direita, o chamado Centrão.
E o principal protagonista disso tem sido o candidato bolsonarista da vez. Sem condições de sustentar debate consistente sobre os rumos do País, Flávio Bolsonaro (PL) acabou por implodi-lo.
Não se trata simplesmente de apatia popular. Tampouco faltam problemas a discutir. O Brasil enfrenta questões enormes e graves: emprego, renda, segurança, saúde, educação, jornada de trabalho, indústria, desenvolvimento tardio, desigualdade, meio ambiente, soberania e o papel do Estado.
O que falta é transformar esses problemas em debate político amplo, com a participação do povo, e das instituições, sobre suas causas e os caminhos para enfrentá-los. A campanha, em grande medida, fez o contrário.
É preciso, ainda, um esclarecimento: fala-se em “polarização”, mas o termo merece ressalvas. A campanha e o governo Lula não representam o polo oposto da extrema direita, como se fossem expressões equivalentes e simétricas. Não são. O governo Lula não é de extrema esquerda, nem o projeto se confunde com o da extrema direita. O que existe é disputa política profundamente assimétrica.
Política reduzida à acusação
Exemplo disso é o debate nacional sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho. Qual é a posição da direita e da extrema direita sobre essas pautas? São contra. Ainda assim, votaram a favor na Câmara, pressionadas pelo ambiente eleitoral.
A corrupção, evidentemente, deve ser investigada e combatida. O problema começa quando essa deixa de ser tema a ser compreendido em suas dimensões políticas, econômicas e institucionais e passa a funcionar como substituto do debate.
Desde as eleições que antecederam a Constituinte de 1988, esse substrato aparece no debate público. Mas nunca havia conseguido se impor dessa forma como pauta quase exclusiva.
Quem roubou? Quem é corrupto? Quem tem ficha limpa? Quem é mais suspeito? São perguntas legítimas, mas insuficientes para estruturar eleição que deveria discutir os caminhos e soluções para o País.
Por que determinados mecanismos de corrupção se reproduzem? Como funcionam os controles do Estado? Quem define o Orçamento? Quem se beneficia de determinada política econômica ou pública? Que interesses estão por trás das escolhas do governo?
Sem essas perguntas, a política vira tribunal. E o eleitor é transformado em espectador de sucessão interminável de acusações, sem que as causas dos problemas e as possíveis soluções sejam devidamente discutidas.
Método do esvaziamento
Esse ambiente não surgiu do nada. A extrema direita, que se alimenta politicamente da indignação, do medo e do ressentimento, encontra terreno fértil numa campanha em que o confronto pessoal substitui a discussão programática.
Não é preciso dizer que os candidatos da direita e extrema direita não tenham propostas. Eles têm programas registrados, como os demais. A questão é outra: quanto dessas propostas chega efetivamente ao debate público?
Quando um candidato defende privatizações, redução do Estado, mudança das regras fiscais ou endurecimento penal, o eleitor deveria saber quais seriam os efeitos concretos dessas escolhas.
Da mesma forma, quando outro defende investimento público, política industrial, ampliação de direitos trabalhistas ou fortalecimento das políticas sociais, deveria responder às mesmas perguntas. Isto se configuraria no debate.
É, inclusive, contraditório ouvir candidatos de direita e extrema direita defenderem simultaneamente mais segurança pública, por exemplo, e Estado mínimo. Segurança pública exige Estado: investimento, estrutura, inteligência, contratação e valorização de agentes públicos. A promessa de Estado mínimo entra em choque frontal com essa necessidade.
Isso é o debate democrático. Transformar tudo em acusação é outra coisa.
Imprensa e espetáculo
A imprensa também participa desse processo. Não porque seja responsável por tudo, mas porque define, em grande medida, quais assuntos ganham centralidade. E é preciso distinguir os jornalistas dos proprietários dos grandes grupos de comunicação, que controlam jornais, rádios, TV e plataformas digitais.
Conflitos produzem audiência. Acusações produzem manchetes. Réplicas e tréplicas alimentam o ciclo informativo — e, muitas vezes —, desinformativo. Explicar reforma tributária, política industrial ou os efeitos de mudança no gasto público exige tempo, contexto e investigação.
O resultado é conhecido: o problema aparece, mas suas causas desaparecem.
É possível mostrar a violência sem discutir suas raízes sociais, econômicas e territoriais; mostrar a corrupção sem explicar os mecanismos que a permitem; mostrar a crise institucional sem discutir as estruturas que produzem os conflitos entre os Poderes.
A sociedade vê o incêndio. Raramente lhe explicam como a casa pegou fogo.
Não é o povo que está despolitizado
Há outra armadilha que precisa ser recusada: geralmente, responsabilizar os mais pobres pela despolitização.
O trabalhador — preocupado com o preço dos alimentos, o aluguel, o emprego, a segurança, a fila do SUS ou à escala 6x1 — não está desinteressado da política. Está vivendo cotidianamente a política na própria pele.
O problema surge quando essa experiência não se transforma em compreensão sobre as estruturas que determinam a própria vida. Ele está dentro dessa roda-viva, mas frequentemente com os olhos vendados e as mãos atadas por informação fragmentada, superficial e muitas vezes orientada pelo conflito.
Dizer que “todos são iguais” pode parecer conclusão popular, mas também é resultado de política reduzida a escândalos. Quando tudo vira corrupção, todos parecem corruptos. Quando todos parecem iguais, nenhuma escolha parece capaz de mudar alguma coisa. É aí que a despolitização se torna perigosa.
Instituições são reflexo da sociedade
A crise de confiança nas instituições precisa ser compreendida dentro dessa realidade. Justiça, Congresso, Executivo, imprensa e partidos não estão fora da sociedade. São parte dessa e carregam suas contradições.
Por isso, a questão não é exigir fé nas instituições. É exigir instituições que funcionem, sejam fiscalizadas, tenham transparência e respondam à sociedade.
A desconfiança democrática pode ser saudável. A descrença absoluta — “ninguém presta”, “nada funciona”, “é tudo a mesma coisa” — abre vazio perigoso. E todo vazio político pode ser ocupado pelo autoritarismo.
Devolver política à eleição
A reta final deveria fazer exatamente o movimento contrário ao que predominou até aqui: menos espetáculo e mais conteúdo; menos acusação como fim e mais investigação e explicação; menos personalização e mais projetos.
A democracia não precisa de eleitor ideal, perfeitamente informado sobre tudo. Precisa de cidadãos com condições de compreender o que está sendo escolhido, quem será afetado e quais consequências podem resultar de cada projeto.
Eleição não deveria ser apenas disputa para descobrir quem é menos rejeitado, mais ou menos corrupto. Deveria ser disputa sobre que País se quer construir para o futuro que já chegou e o Brasil está atrasado.
Quando a política deixa de discutir isso, não é apenas o debate eleitoral que empobrece. É a própria democracia que perde substância.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
