Luiz Alberto dos Santos*

Em 25 de outubro de 2026, o eleitorado brasileiro compareceu novamente às urnas, e Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito para exercer, a partir de 5 de janeiro de 2027, o seu quarto mandato presidencial, o sexto de um presidente eleito pelo Partido dos Trabalhadores.

Foi uma jornada eleitoral surpreendente e inédita. Após perder a eleição para
Flávio Bolsonaro no primeiro turno, por uma diferença de 2,24 milhões de votos, e estar diante do desafio de reduzir a abstenção, votos nulos e brancos, que totalizaram 39,4 milhões de eleitores, Lula conseguiu o fato inédito de ampliar em 10,376 milhões os seus votos, enquanto seu oponente teve aumento de apenas 3,7 milhões de votos.

Em comparação com a eleição de 2022, quando venceu a eleição em segundo turno por apenas 2,1 milhões de votos (60,345 milhões, contra 58,206 milhões de Jair Bolsonaro), em 2026 a vitória de Lula foi muito mais expressiva e significativa, em diversas dimensões.

A começar pela relevância que a defesa da democracia assumiu no segundo turno: muitos eleitores foram votar, em segundo turno, para evitar a vitória de Flávio Bolsonaro, por tudo que sua eleição representaria.

O fenômeno não é inédito no mundo, embora seja a primeira ocorrência no Brasil em que um candidato consegue “virar” o resultado entre primeiro e segundo turnos, num contexto diferenciado em que as redes sociais, as fake news e a mobilização popular assumiram protagonismo inédito.

Como ocorreu no caso brasileiro, as eleições europeias recentes demonstram que a vantagem obtida por candidatos de direita, especialmente da direita nacionalista e radical, no primeiro turno não assegura sua vitória no segundo. Em diversos países, a convergência de eleitores de centro, esquerda e direita moderada, associada à redistribuição dos votos dos candidatos eliminados e, em alguns casos, ao aumento do comparecimento, produziu reversões expressivas.

O exemplo mais significativo ocorreu na Romênia, em maio de 2025. George Simion, líder da direita nacionalista, venceu o primeiro turno com 40,96% dos votos, praticamente o dobro dos 20,99% recebidos pelo candidato independente e pró-europeu Nicu?or Dan. Entretanto, no segundo turno, Dan venceu com 53,60%, contra 46,40% de Simion. Sua votação saltou de 1,98 milhão para 6,17 milhões de votos, enquanto a participação eleitoral aumentou de 53,2% para 64,7%. A diferença entre os candidatos sofreu uma inversão de aproximadamente 27 pontos percentuais, evidenciando o impacto combinado da convergência eleitoral e da mobilização de novos votantes.

Na Áustria, em 2016, ocorreu fenômeno semelhante. Norbert Hofer, do Partido da Liberdade (FPÖ), de direita radical, venceu o primeiro turno com 35,1%, contra 21,3% de Alexander Van der Bellen, candidato independente associado aos Verdes. Após a anulação do segundo turno de maio por irregularidades procedimentais, uma nova votação, em dezembro, deu a vitória a Van der Bellen, com 53,8% dos votos. O comparecimento cresceu de 68,5% para 74,2%, demonstrando a importância da ampliação da participação e da formação de uma maioria eleitoral mais abrangente.

Na Eslovênia, em 2022, o conservador Anže Logar liderou o primeiro turno presidencial com aproximadamente 34%, superando a independente Nataša Pirc Musar, que recebeu cerca de 27%. No segundo turno, Pirc Musar venceu com 53,89%, reunindo apoios de diferentes setores políticos, especialmente de centro e centro-esquerda.

A França oferece dois exemplos distintos. Na eleição presidencial de 2022, Emmanuel Macron, que havia ficado em primeiro lugar no primeiro turno, ampliou sua votação expressivamente e derrotou Marine Le Pen por 58,55% a 41,45%, embora ela também tenha ampliado significativamente sua votação. Já nas eleições legislativas de 2024, a Reunião Nacional liderou o primeiro turno, mas uma estratégia de retirada coordenada de candidaturas de esquerda e centro contribuiu para impedir que o partido conquistasse a maior bancada parlamentar.

Esses resultados revelam um mecanismo recorrente: candidatos de direita podem possuir eleitorados expressivos e relativamente consolidados, mas encontrar dificuldades para conquistar apoios adicionais suficientes no segundo turno, quando o eleitorado percebe os riscos implícitos em sua eleição, seja por acenarem com medidas de redução de gastos sociais e cortes de direitos, seja por seu viés autoritário.

O paralelo com o Brasil de 2026 é particularmente relevante. Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno, mas Lula ampliou sua votação de forma surpreendente, revertendo o resultado. A redução das abstenções e dos votos brancos e nulos também contribuiu para a expansão dos votos válidos.

A experiência europeia sugere, portanto, que o segundo turno não representa simplesmente a repetição da disputa inicial. Ele reorganiza as alternativas eleitorais e pode produzir maiorias diferentes, sobretudo quando um candidato consegue ampliar seus apoios para além da própria base, como fez Lula em 2026. Isso não significa, entretanto, que exista uma tendência inevitável de derrota da direita: na Polônia, em 2025, o conservador Karol Nawrocki venceu o segundo turno presidencial, demonstrando que os resultados dependem das circunstâncias políticas e eleitorais específicas.

Analisaremos, a seguir, os resultados da eleição brasileira, comparando os dados de votação do primeiro turno com o segundo turno.

1. Síntese dos resultados: uma alteração importante na distribuição dos votos

Também foi fato inédito, na eleição de 2026, o fato de o Supremo Tribunal Federal haver acatado pedido de prorrogação do horário de votação. O Min. Cristiano Zanin, acatando pedido na Reclamação nº 101.673, determinou, às 17h do dia 25.10.2026, a prorrogação por duas horas, em vista de ocorrências diversas denunciadas pela Coligação Brasil Pronto para Mais de interferências para impedir o acesso de eleitores aos locais de votação. Essa decisão, que gerou acusação do candidato derrotado e ameaça de pedir a anulação da eleição, por “quebra de isonomia” foi, contudo, relativizada: somente as urnas que ainda estavam “abertas” puderam receber novos votos e dados do TSE apontam que, em todo o Brasil, apenas 7.552 urnas continuaram recebendo votos, e ao total foram depositados apenas 5.052 votos, ou seja, sem a mínima interferência nos resultados.

A presente análise utiliza os dados consolidados de resultados eleitorais de 2026, abrangendo as 27 unidades da Federação, a votação no exterior e os resultados nacionais dos dois turnos. São examinadas as variações absolutas e relativas da votação dos finalistas, a distribuição dos votos recebidos pelos candidatos eliminados no primeiro turno, a evolução do comparecimento eleitoral e as diferenças regionais na composição dos resultados.

A comparação dos resultados do primeiro e do segundo turnos das eleições presidenciais brasileiras de 2026 revela mudanças significativas na distribuição territorial dos votos, na participação eleitoral e no desempenho relativo dos dois candidatos que disputaram a etapa final: Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Os dados evidenciam que a reversão da vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno decorreu de um crescimento proporcionalmente maior da votação de Lula, acompanhado de redução das abstenções e dos votos brancos e nulos. Esse movimento ocorreu em intensidades distintas entre as unidades da Federação, com consequências relevantes para a composição do resultado nacional.

De acordo com os dados do Tribunal Superior Eleitoral, já com 100% dos votos contabilizados, Lula passou de 53,88 milhões para 64,26 milhões de votos, enquanto Flávio Bolsonaro passou de 56,10 milhões para 59,83 milhões.

(*) Advogado, consultor, mestre em Administração e doutor em Ciências Sociais

Nós apoiamos

Nossos parceiros