lula eleito pronunciamento

Neuriberg Dias*

As eleições de 2026 entraram para a história. A virada que garantiu a reeleição do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva para exercer seu quarto mandato, a partir de 2027, foi mais do que uma vitória eleitoral: o resultado das urnas reafirmou que qualquer candidato que se proponha a liderar um país deve ter compromisso com a democracia, a soberania nacional e o respeito à diversidade do nosso povo.

O pleito foi realizado em um ambiente de forte interferência externa e interna, marcado, desde a posse do presidente Lula, em 2023, por tentativa de golpe de Estado, tarifaços dos EUA, influência das Big Techs e restrições ao debate público, em meio à disseminação massiva de desinformação e Fake News. Nesse contexto, decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal também assumiram grande protagonismo durante o 1º e o 2º turnos das eleições presidenciais.

Em relação a mudança ou continuidade, o eleitorado manifestou nas urnas seu desejo de manter o presidente Lula no cargo, com ampliação do apoio em relação às eleições de 2022. No 1º turno, Flávio Bolsonaro obteve 47,03%, ou 56.104.503 votos, enquanto Lula alcançou 45,16%, ou 53.879.538 votos. No 2º turno, Lula saiu vitorioso, com 51,79%, ou 64.256.232 votos, contra 48,21%, ou 59.826.041 votos, obtidos por Flávio Bolsonaro.

Eleições presidências – resultado no 1º turno

Candidato

Partido

Votos

Percentual

FLAVIO BOLSONARO

PL

56.104.503

47,03%

LULA

PT

53.879.538

45,16%

ESCRITOR AUGUSTO CURY

AVANTE

3.448.569

2,89%

RENAN SANTOS

MISSÃO

2.675.887

2,24%

RONALDO CAIADO

PSD

2.605.148

2,18%

ZEMA

NOVO

326.488

0,27%

SAMARA

UP

122.911

0,10%

HERTZ DIAS

PSTU

43.103

0,04%

CLARIANA BARAO

DC

40.043

0,03%

EDMILSON COSTA

PCB

22.693

0,02%

VETERINÁRIO WILSON GRASSI

DEMOCRATA

16.881

0,01%

RUI COSTA PIMENTA

PCO

15.024

0,01%

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

A polarização e a rejeição a ambos os candidatos foram os principais desafios que orientaram as estratégias das campanhas. Enquanto a campanha de Lula foi assertiva ao identificar os principais erros cometidos no 1º turno e corrigir os rumos de sua estratégia para a etapa decisiva, o candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, limitou-se a administrar a campanha no 2º turno, subestimando a força de um presidente popular e experiente que disputava a reeleição.

De um lado, Lula apostou em medidas de forte apelo popular, como o aumento do Bolsa Família, o fim das bets, o fim da escala 6x1, o perdão de dívidas e a oferta de crédito para microempreendedores individuais (MEIs), entre outras propostas. Essas iniciativas colocaram o adversário em contradição com seu próprio programa de governo durante os debates televisionados. De outro, a campanha deslocou sua comunicação dos meios tradicionais para as redes sociais, com Lula gravando vídeos que exploravam as contradições do seu rival e ampliavam a comparação entre suas propostas. Isso permitiu contornar restrições e dificuldades na distribuição de conteúdo impostas pelas plataformas digitais.

A redução da alienação eleitoral — expressa pela abstenção e pelos votos brancos e nulos — no 2º turno foi significativa. O índice de 22,46% representou a segunda menor média das últimas dez eleições presidenciais, ficando atrás apenas da registrada em 1989, de 20,22%. Em 2026, no 1º turno, a abstenção foi de 21,08%, os votos brancos corresponderam a 1,84%, os votos nulos totalizaram 2,93% e a soma desses indicadores chegou a 25,85%. No 2º turno, a abstenção foi de 19,22%, os votos brancos representaram 1,12%, os votos nulos corresponderam a 2,12% e a soma desses indicadores caiu para 22,46%.

Turno/Indicador

1989

1994

1998

2002

2006

2010

2014

2018

2022

2026

Eleito

Collor

FHC*

FHC*

Lula

Lula

Dilma

Dilma

Bolsonaro

Lula

Lula

1º turno — Abstenção

11,93%

17,77%

21,49%

17,74%

16,75%

18,12%

19,39%

20,33%

20,95%

21,08%

1º turno — Brancos

1,63%

9,23%

8,03%

3,03%

2,73%

3,13%

3,84%

2,65%

1,59%

1,84%

1º turno — Nulos

4,81%

9,56%

10,67%

7,36%

5,68%

5,51%

5,60%

6,14%

2,82%

2,93%

1º turno — Total

18,37%

36,56%

40,19%

28,13%

25,16%

26,76%

29,03%

29,12%

25,36%

25,85%

2º turno — Abstenção

14,40%

-

-

20,47%

18,99%

21,50%

21,10%

21,30%

20,59%

19,22%

2º turno — Brancos

1,40%

-

-

1,89%

1,32%

2,30%

1,71%

2,14%

1,43%

1,12%

2º turno — Nulos

4,42%

-

-

4,11%

4,71%

4,40%

4,63%

7,43%

3,16%

2,12%

2º turno — Total

20,22%

-

-

26,47%

25,02%

28,20%

27,44%

30,87%

25,18%

22,46%

Essa ampliação da participação e a mobilização de eleitores foram fatores importantes para a virada do presidente Lula no segundo turno. A mudança de tática da campanha contribuiu para esse resultado. O chamado “Exército do Lula” criado no WhatsApp e coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), mobilizou as ruas e as redes sociais por meio de um método de distribuição humanizada de conteúdo, no qual as pessoas compartilhavam informações diretamente umas com as outras, em vez de depender exclusivamente de robôs ou dos algoritmos das plataformas.

Essa estratégia mostrou-se eficiente para estimular os eleitores a refletir sobre o voto e rever suas escolhas numa espécie de circulação da abstenção: eleitores que deixaram de se abster e compareceram às urnas; eleitores que haviam votado em outros candidatos no 1º turno, mas se abstiveram e/ou migraram seus votos no 2º turno; e, ainda, aqueles alcançados pela estratégia do chamado vira-voto. Esse conjunto de movimentos favoreceu majoritariamente Lula.

Governabilidade

O presidente reeleito tem pela frente o desafio de governador com um Congresso Nacional com crescimento da extrema-direita, mas ainda de maioria de direita e conservadora, tanto na Câmara dos Deputados como no Senado Federal a partir de 2027 a 2031. As eleições dos presidentes das Casas serão decisivas para entender para onde vai pender essa nova correlação de forças.

Diferentemente, da expectativa criada de uma onda de renovação de direita no Parlamento, na verdade teve na Câmara e Senado, uma baixa renovação histórica de 40% da casa, menor histórica desde 1990. Em 2022, foi de 44,24% e 2018 de 52,43%. E no Senado uma renovação de 74% das vagas, porém menor à registrada em 2018, quando foi de 82,15%. Mas o que houve foi uma reorganização ideológica na composição das Casa mais à extrema direita e reduzindo o “Centrão”, em especial, o PP/União. O aumento de 22 deputados e de 13 senadores do PL veio desses partidos a direita ou centro tradicional como o próprio PP/Uniao, Republicanos, PSDB/Cidadania, MDB e PSD.

A distribuição a partir do perfil ideológico dos partidos ajuda a compreender as condições e desafios a governabilidade ao presidente Lula: na Câmara, a direita saiu de 244 para 260 deputados; a centro-direita de 94 para 81; o centro 50 para 48; a centro-esquerda de 27 para 21; e a esquerda de 98 para 103; no Senado: a direita de 32 para 48; a centro-direita de 21 para 8; o centro de 9 para 8; a centro-esquerda de 8 para 5; e a esquerda de 9 para 11.

O governo Lula disporá de 124 a 370 deputados de base de apoio, sendo 124 consistentes e 246 condicionados, contra 143 de oposição. A maioria existe no papel, mas está concentrada no apoio condicionado — o segmento mais volátil da série comparada do DIAP, que exigirá muito diálogo e negociações com os partidos e seus parlamentares nada muito diferente na atual legislatura. No Senado, o quadro é o mais complexo: 16 a 47, sendo 16 consistentes, 31 condicionados e 34 de oposição.

Base de apoio na Câmara dos Deputados – histórico e cenários

Governo

Apoio consistente

Apoio condicionado

Oposição

Total

Collor

160

160

183

503

Itamar

250

203

50

503

FHC I

296

115

102

513

FHC II

260

123

130

513

Lula I

207

116

190

513

Lula II

291

86

136

513

Dilma I

351

51

111

513

Dilma II

304

33

175

513

Temer

358

53

102

513

Bolsonaro

257

117

139

513

Lula III

140

159

214

513

Lula IV

124

246

143

513

Fonte: Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP)

 

Base de apoio no Senado Federal – histórico e cenários

Governo

Apoio consistente

Apoio condicionado

Oposição

Total

FHC I

64

5

12

81

FHC II

65

0

16

81

Lula I

45

5

31

81

Lula II

44

5

32

81

Dilma I

55

7

19

81

Dilma II

53

1

27

81

Temer

59

6

16

81

Bolsonaro

37

27

17

81

Lula III

17

39

28

81

Lula IV

16

31

34

81

Fonte: Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP)

A oposição liderada pelo Partido Liberal (PL), que elegeu as maiores bancadas no Legislativo Federal, com 121 deputados e 29 senadores, poderá dispor de maior poder de atuação parlamentar e de mecanismos institucionais de fiscalização e controle do Poder Executivo na próxima legislatura. Esse potencial poderá ser ampliado pelo apoio de outros partidos, como o Novo, e de parlamentares alinhados ao bolsonarismo.

Em geral, as bancadas parlamentares mais numerosas exercem maior influência sobre os processos legislativo e decisório, uma vez que a distribuição dos cargos de influência no Congresso Nacional — a indicação de presidentes de comissões e a ocupação das vagas disponíveis — observa, em regra, o princípio da proporcionalidade partidária.

No caso do PL, por se tratar de bancada de oposição ao governo, essa influência pode se traduzir em algo que vai muito além da capacidade de fiscalizar os atos do Poder Executivo, alcançando, por exemplo, a criação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) e de Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito (CPMIs).

Ela se manifesta também na votação de matérias — na aprovação ou rejeição de projetos de lei ordinária, de projetos de lei complementar e de propostas de emenda à Constituição (PECs) —, bem como na apresentação de emendas e de requerimentos de destaque, instrumentos que permitem solicitar a votação em separado de trechos de uma proposição. Some-se a isso a atuação nas comissões permanentes e temporárias, cuja distribuição de vagas também observa o tamanho das bancadas eleitas.

Embora uma oposição numericamente expressiva possa impor obstáculos à agenda governista e exercer influência sobre as decisões parlamentares, sua capacidade efetiva de aprovar ou impedir a aprovação de matérias depende dos quóruns exigidos para cada tipo de proposição, das regras regimentais, da composição das demais bancadas e dos acordos firmados no Colégio de Líderes.* Jornalista, Analista Político, Consultor de Relações Institucionais e Governamentais, Sócio-Diretor da Contatos Assessoria Política e Diretor de Documentação do DIAP.

Leia mais:

Análise geral do resultado das eleições no 1º turno

A Vitória de Lula em 2026: Análise do comportamento eleitoral nos estados brasileiros nas eleições presidenciais de 2026

* Jornalista, Analista Político, Consultor de Relações Institucionais e Governamentais, Sócio-Diretor da Contatos Assessoria Política e Diretor de Documentação do DIAP.

 

Nós apoiamos

Nossos parceiros