mulheres jovens


Levantamento mostra que, aos 18 anos, metade das brasileiras já acumula estudos, trabalho remunerado e cuidados domésticos ou familiares. A sobrecarga atinge principalmente mulheres negras, compromete permanência na escola, reduz oportunidades e reproduz desigualdades estruturais

Enquanto a juventude costuma ser associada à formação profissional e à construção de projetos de vida, milhões de jovens brasileiras iniciam a vida adulta sob realidade bem diferente: a das múltiplas jornadas. 

Aos 18 anos, metade delas já divide o tempo entre os estudos, o trabalho remunerado e os cuidados com a casa ou familiares. Apenas 2% não desempenham ao menos uma dessas atividades.

É o que revela pesquisa da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), realizada em parceria com a Secretaria Nacional de Cuidados e Família com base nos dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2022.

Os dados, reunidos na pesquisa sobre Juventudes e a Política de Cuidados, evidenciam que a desigualdade de gênero se instala muito antes da entrada definitiva no mercado de trabalho.

Essa se manifesta na distribuição desigual das tarefas domésticas e de cuidado, atividades indispensáveis para a reprodução da vida, mas historicamente invisibilizadas e não remuneradas.

O estudo revela ainda que essa realidade pesa de forma ainda mais intensa sobre jovens negras, que enfrentam simultaneamente desigualdades de gênero, raça e renda, ampliando as barreiras ao acesso à educação, ao emprego de qualidade e à autonomia econômica.

Tripla jornada começa cedo

A pesquisa demonstra que a sobrecarga feminina não é consequência exclusiva da maternidade ou da vida adulta consolidada. Essa começa ainda na juventude.

Entre as mulheres de 18 a 24 anos, parcela significativa já concilia trabalho remunerado com responsabilidades de cuidado. Nesse grupo, 13,1% vivem a chamada jornada tripla, que acumula estudo, emprego e cuidados domésticos ou familiares.

Na faixa de 25 a 29 anos, a situação torna-se ainda mais intensa: 57,4% conciliam o trabalho remunerado com as tarefas domésticas e os cuidados com outras pessoas, revelando que a dupla jornada rapidamente se torna regra, e não exceção.

Os números desmontam a percepção de que o cuidado é atividade secundária ou eventual. Para milhares de jovens, esse organiza a rotina diária e condiciona as possibilidades de estudo, qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho.

Trabalho que sustenta a sociedade, mas permanece invisível

Embora essencial para o funcionamento das famílias e da economia, o trabalho de cuidados continua sendo distribuído de forma profundamente desigual entre homens e mulheres.

Preparar refeições, limpar a casa, cuidar de crianças, idosos ou pessoas com deficiência são tarefas que permanecem majoritariamente sob responsabilidade feminina, sem remuneração e frequentemente sem reconhecimento social.

Essa divisão desigual reduz o tempo disponível para qualificação, lazer, descanso e participação política ou comunitária, isso produz ciclo que compromete o desenvolvimento pessoal e profissional desde os primeiros anos da vida adulta.

Educação interrompida e saúde comprometida

Os impactos dessa sobrecarga vão além da organização da rotina.

O acúmulo de responsabilidades favorece o esgotamento físico e emocional, aumenta os níveis de estresse e contribui para o abandono ou adiamento dos estudos.

A dificuldade para conciliar tantas demandas também limita o acesso a empregos mais qualificados, perpetuando desigualdades salariais e reduzindo as perspectivas de ascensão social.

Especialistas apontam que a desigual distribuição do cuidado afeta diretamente a autonomia financeira das mulheres e ajuda a explicar diferenças persistentes de renda, ocupação e participação no mercado de trabalho.

Desigualdade que atravessa gênero, raça e classe

A pesquisa mostra que a sobrecarga não se distribui igualmente entre todas as jovens.

Mulheres negras aparecem entre as mais afetadas pela acumulação de responsabilidades, resultado da combinação entre desigualdades de gênero, raça e condições socioeconômicas.

Esse cruzamento de fatores amplia a vulnerabilidade social e reduz oportunidades educacionais e profissionais, reproduzindo padrão histórico de exclusão que atravessa gerações.

Política de cuidados ganha centralidade

Os resultados reforçam debate que ganha espaço no Brasil e em diversos países: a necessidade de transformar o cuidado em tema central das políticas públicas.

Especialistas defendem que ampliar a oferta de creches, fortalecer a educação infantil, expandir serviços públicos de assistência a idosos e pessoas com deficiência e promover maior corresponsabilidade entre Estado, mercado e famílias são medidas fundamentais para reduzir a sobrecarga feminina.

Também cresce a discussão sobre incentivar divisão mais equilibrada das tarefas domésticas entre homens e mulheres, rompendo padrões culturais que ainda atribuem às mulheres a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado.

Retrato das desigualdades brasileiras

Mais do que revelar hábitos familiares, a pesquisa oferece retrato das desigualdades estruturais que moldam a vida das jovens brasileiras.

Ao mostrar que a maioria delas inicia a vida adulta acumulando múltiplas jornadas, o levantamento evidencia que o cuidado permanece sendo um dos principais fatores de reprodução das desigualdades de gênero no País.

Enquanto essa responsabilidade continuar recaindo de forma desproporcional sobre as mulheres — especialmente as negras e de menor renda —, educação, trabalho, renda e autonomia seguirão sendo oportunidades distribuídas de maneira desigual, perpetuando ciclo que limita não apenas trajetórias individuais, mas também o potencial de desenvolvimento social e econômico do Brasil.

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